terça-feira, 28 de maio de 2013

Alzheimer: Quando é Tarde Demais Para Agradecer



Qual o maior ato de bondade que alguém pode realizar? Segundo a tradição judaica, é preparar os mortos para o enterro. Uma pessoa morta não pode agradecer pelos serviços que você presta, nem gratificar o seu ego. Não há retribuição. Embora a maior parte das pessoas goste de fazer bondades para os outros, em última análise queremos que nossas boas ações sejam reconhecidas, notadas ou valorizadas.

Eu me pergunto: cuidar vinte e quatro horas por dia de um parente idoso que sofre de Alzheimer conta como cuidar de um morto vivo? Na verdade, descobri que é a tarefa mais sem agradecimento que existe, além de ser exaustiva, emocional e fisicamente. Embora eu esteja certa de estar cumprindo a mitsvá de honrar os pais, parece mais que estou cuidando de um estranho em vez de cuidando da minha mãe.

Até surgir o Alzheimer, minha mãe nunca tinha abusado de mim, fosse física, verbal ou emocionalmente. Alguns dias ela não se lembra do meu nome. Ontem, chegamos a um novo patamar: ela não lembra mais que eu sou sua filha.

Minha mãe, tão meticulosa sobre higiene pessoal e sempre vestida com elegância, não pode mais ser forçada a tomar um banho ou a vestir roupas limpas e que combinem. Ela, que adorava crianças, agora detesta ficar na mesma sala com os netos e bisnetos e não se acanha em dizer isto a eles (uma neta pequena ficou tão traumatizada que agora chora e estremece com medo sempre que vai visitar a avó, e raramente vai vê-la em minha casa). Essa pessoa furiosa, assustadora e deprimida não é minha mãe – é uma estranha.

Gosto de cozinhar; não é raro eu preparar e servir refeições para 25 pessoas. Como é irônico que agora uma das partes mais estressantes do meu dia seja planejar a refeição para apenas uma pessoa. Tanto tempo, ideias e despesa a fim de preparar uma refeição para minha mãe. Esforço-me para ter variedade, apelo visual e nutrição. Se uma só refeição for pulada, isso pode resultar, para minha mãe, em náusea, fraqueza e desidratação.

Primeiro, é preciso ser um mágico para antecipar as necessidades dela – quando minha mãe está faminta, ela quer comer agora mesmo. Porém dois minutos após o jantar, ela pode esquecer que comeu e reclamar que está morrendo de fome – então preciso começar tudo de novo. Um cardápio que ela achou delicioso dias ou mesmo horas atrás agora “parece que saiu da lata do lixo”, está “podre”, tem “insetos” ou então está “frio demais” ou “quente demais”. Além disso, pode estar tocando outro alimento, o que torna toda a refeição indesejável, está salgada demais, não tem sal suficiente, temperada demais, sem gosto de nada – eu nunca aprendi a cozinhar?

Ela pode estar faminta, mas vai dizer “Não sinto a menor fome” e depois de alguns acessos de fúria, alguma coerção e subornos, come resmungando – e devora toda a refeição. Um desjejum que seria comido por uma pessoa saudável em 15 minutos pode demorar uma hora para minha mãe. Eu gostaria de dizer que aceitei esta enorme responsabilidade com um sentimento de amor e alegria. Estou tentando, mas ainda não cheguei lá. Posso não estar feliz com a aflição de minha mãe, mas não estou furiosa com D'us. Não pergunto: Por que eu? Porém a intervalos regulares, pergunto: Como posso entender melhor aquilo que D'us deseja de mim?

Imagem no Espelho
Há pouco tempo minha filha mais velha teve seu sexto filho; o mais velho tem apenas oito anos. Após arranjar alguma ajuda extra para cuidar de minha mãe (graças ao meu marido, minhas filhas casadas e uma funcionária), viajei para ficar com minha filha e netos e ajudar durante alguns dias. A hora das refeições era talvez a mais difícil do dia. Uma das crianças não comia se alimentos diferentes se tocassem no mesmo prato. Outra dizia que a comida estava quente demais ou fria demais. Outra se tornava muito irritada se não fosse servida agora mesmo. Uma delas disse que a comida estava temperada demais, outra que estava sem graça. Uma outra falou que a comida parecia vermes e olhos (mas comeu assim mesmo). Um deles recusou-se a comer qualquer coisa. O outro levou dois minutos para comer; o pequeno enrolou para engolir durante 30 minutos, após muita adulação. O suco derramado e as roupas manchadas! O barulho e as ocasionais brigas entre irmãos!

Ocorreu-me que o comportamento deles espelhava o de minha mãe. Porém quando as crianças agiam, eu não me senti tensa ou aborrecida – havia alegria e nachas*. Não é irônico que quando um bebê não corresponde ou se suja, mesmo assim o achamos adorável? Infelizmente, o mesmo não pode ser dito sobre comportamento idêntico vindo de uma pessoa idosa. Enquanto eu corria de uma criança para outra, beijando um ali, servindo uma refeição, separando roupas sujas, limpando uma mancha – as coisas que todas as mães no mundo inteiro fazem – pensei retoricamente: Onde está a gratidão? A natureza de uma criança é narcisista, e a expectativa supera a apreciação. E mesmo assim as amamos incondicionalmente.

Por que eu achava tão difícil fazer isto com minha mãe?

Foi quando me ocorreu a revelação: O que D'us deseja de mim?

Se somos criados à Sua imagem e Ele é nosso Pai, não somos como a criança mal-agradecida? Aceitamos como algo que nos é devido às bondades “regulares” que recebemos diariamente – o fato de termos comida para comer, e geralmente saborosa! Termos roupas para vestir, e elas são (na maioria) limpas e atraentes! Temos um quarto para chamar de nosso, e uma cama para dormir!

Porém se algumas dessas coisas nos fossem negadas, mesmo por um curto período, seríamos desaforados porque passamos a esperar por isso, assim como o ar que respiramos e o sol que nasce (mais coisas para agradecer!). As bênçãos diárias que recitamos pela manhã são um veículo para mostrar gratidão a D'us. Elas nos ajudam a termos consciência da Sua bondade e a não considerar qualquer parte da nossa vida como algo que nos é devido. Isso nos eleva acima do senso de habilitação infantil e nos encoraja a levar uma vida mais consciente – e conscienciosa. E por mais imperfeitos que sejamos, D'us nos ama incondicionalmente.

Se as duras críticas que recebo de minha mãe, apesar dos meus esforços para cuidar dela, fazem meus ouvidos arderem e meu coração ficar pesado de tristeza e frustração, devo olhar para mim mesma e perguntar: eu agradeci adequadamente a ela por todas as noites em que a deixei sem dormir enquanto ela cuidava de mim? Agradeci por ela me preparar refeições diárias e por lavar as minhas roupas? Por ajudar-me com meu dever de casa? Por aconselhar-me e me encorajar?

A maioria de nós poderia jamais acabar de achar coisas pelas quais agradecer aos pais. Agora que aos poucos minha mãe está se tornando um recipiente vazio, tragicamente é tarde demais para eu consertar as coisas. Reconhecer verbalmente a ela suas bondades passadas seria criar confusão e incompreensão.

Porém não é tarde demais para eu agradecer a D'us. Quando acordo pela manhã, recito modeh ani (agradeço a Ti) com uma convicção cada vez maior. Recito as bênçãos com mais sinceridade, e aprecio mais as coisas grandes e pequenas. Ironicamente, minha lista de gratidão aumenta com a mesma rapidez do declínio de minha mãe.

Sarah Bloomberg
Fonte: Chabad
* Nachas : palavra iídiche que significa orgulho, alegria


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