sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Como lutamos contra o mal?


            Por décadas, a palavra foi um tabu. Se você a pronunciasse no rádio, eles a cortariam. Somente pregadores fundamentalistas, aguçando o medo do inferno e da danação em seu rebanho, costumavam usar esta palavra em público. Ou talvez um vendedor de perfumes, seduzindo o lado obscuro de seus consumidores.
Porém, hoje está em toda parte.
A palavra é 'mal'. Como disse um comentarista, no dia 11 de setembro o mundo teve um momento de lucidez. Na tela da TV, para que todos vissem, estava o puro mal, indisfarçável, desprezível. O relativismo moral morreu a 1000 graus centígrados.
Mas não é assim tão fácil: agora que temos permissão para usar novamente a palavra, o que isso quer dizer?
É algo real, com substância e poder? Ou não é mais que a ausência da verdade, um vácuo da realidade, trevas, uma negação da luz? Se é real, como pôde D'us permiti-lo em Seu mundo? Mas se é apenas escuridão, como pode a escuridão desafiar a luz?
Nenhuma resposta nos satisfará completamente. O mal está perto demais para que possamos ver claramente; é doloroso demais para ser rotulado. Sentimos que talvez estejamos insensivelmente justificando os horrores que se abateram sobre pessoas de bem. Talvez estejamos racionalizando D'us – e nós mesmos – para amenizar a situação. Por outro lado, sem qualquer compreensão sobre o que seja o mal, como podemos ter esperança de lutar contra ele?
Na Torá, a metáfora para o mal é escuridão. Nada mais que a ausência da verdade. Um vácuo da realidade. Como a escuridão, o Mal não tem poder em si mesmo. De onde, então deriva o poder de causar tanto sofrimento no mundo? Falando de forma generalizada, de nós, de nosso medo dele. De que o consideremos "algo" que vale a pena negociar.
Com cada colherada de preocupação nós o incentivamos, com cada vislumbre de trepidação, cada concessão que fazemos de nossa vida para reconhecer sua ameaça – até que o Mal se eleve despudorado para atacar-nos com nossos próprios instrumentos.
Este tema se repete por toda a Torá. Quando a serpente aproximou-se de Eva, explicam os sábios, ela não estava pronta para dar-lhe atenção. Em seu mundo, a serpente poderia muito bem nem sequer existir. Portanto, a serpente teve de dizer: "É verdade que você não pode comer de nenhuma das árvores no jardim?" É claro que a serpente sabia não ser verdade. Mas desta forma, Eva se apercebeu dela. A serpente tornou-se alguém a quem valia a pena dar uma resposta. E portanto, em condições de provocar confusão.
Assim também Moshê. Moshê começou sua carreira como libertador quando matou um feitor egípcio que estava espancando até a morte um escravo judeu. Quando ele descobriu que seu ato se tornara de conhecimento público, a Torá nos diz que "... Moshê ficou temeroso. E o faraó tentou fazer com que fosse morto. Então ele fugiu..." Primeiro, Moshê estava com medo. Somente então o faraó procurou fazer com que o matassem. Sem o medo de Moshê, o faraó não tinha poder.
Mais uma razão para que 11 de setembro fosse nosso momento de lucidez: porque vimos que isso não era mais uma ideia, mas algo claramente concreto, uma metáfora em ação.
Estas pessoas que desejam nos trazer o terror, será que elas têm seu próprio poder? Têm recursos para alimentar o populacho? Ideias que possam promover o progresso? Os mísseis com que nos atacam, foram desenvolvidos e construídos por eles?
Não. Eles nada têm de seu. Foram habilitados por nós, através das bizarras maquinações da política da Guerra Fria. Eles empunharam lâminas compradas em nossas lojas de ferragens, e com elas sequestraram aviões que projetamos para melhorar nosso padrão de vida. Pulverizaram medo em nosso coração com pó roubado de nossos laboratórios. Poeira. Sabendo muito bem que eles não poderiam infectar uma nação. Mas eles podem nos manter realmente assustados. E para o mal, isso é realmente uma vitória. Porque então, através de nosso medo, o mal se torna real.
Saber disso é imensamente útil. Uma vez que tenhamos encontrado o segredo do mal, sabemos como desmontá-lo. A estratégia é quase idêntica, seja ele o mal que assola o globo ou o que esteja dentro da comunidade, ou que esteja nos recessos de seu próprio coração, esperando para aterrorizá-lo na primeira oportunidade.
Não é uma solução simples, porque já nutrimos o mal a tal ponto que ele floresce e se desenvolve a cada dia. No início, Adão e Eva poderiam simplesmente tê-lo ignorado e ele terminaria por se dissolver nas centelhas da luz Divina que eles revelaram no Jardim. Porém, desde que o Mal foi alimentado e sobrevive por si mesmo, jamais poderá ser enfrentado com tanta facilidade novamente.
Apesar disso, nossa maior arma contra o Mal ainda é nosso desrespeito por ele. Esta era talvez a resposta mais frequente do Rebe àqueles que lhe escreviam pedindo conselho sobre como lidar com o mal na vida cotidiana – fosse ele fúria, tentação, pensamentos perturbadores, sonhos maus... mais e mais, escreve o Rebe: "faça mais o bem e afaste sua mente do assunto." Mesmo em questões de saúde, aconselhou o Rebe, "Ache um bom médico, que ficará preocupado com seus problemas. Então simplesmente siga as instruções e afaste sua mente da doença."
Numa escala global, o Mal não é algo a se temer, muito menos com quem negociar. Isso apenas lhe dá mais poder. Sim, às vezes você não tem outra escolha a não ser lutar contra o Mal – como os Macabeus fizeram contra o opressor greco-sírio. Mas humilhe-se para prevalecer contra o Mal e você apenas se juntará a ele em sua lama. Contra o Mal, você deve marchar para a batalha nas nuvens. Deve passar por cima dele, sem jamais olhar para baixo. Pelo contrário, quando em batalha contra o Mal, você deve elevar-se mais e mais alto.
Eis por que é tão importante, para nós, criar mais luz. Mesmo um pouquinho dissipa grande quantidade de trevas. Para cada sombra de escuridão que vemos, devemos produzir megawatts de luz ofuscante. Assim como aqueles possuídos pelo mal fizeram o que era cruel e irracional, além daquilo que o mais louco vidente poderia ter previsto, assim também devemos praticar a bondade além da razão.
De fato, este é o objetivo do mal; por que um D'us todo bondade projetou o mal para estar em Seu mundo?  Porque o mal nos força a atingir o âmago, a encontrarmos nossa força interior, subindo ainda mais alto, até alcançar uma luz brilhante e forte – uma luz que não deixa espaço para as trevas se esconderem.
Contra aquela luz, o Mal derrete-se em submissão, tendo cumprido seu propósito de ser. Pois, no início a escuridão foi feita com um único intento: fazer brotar a luz interior da alma humana. Uma luz que não conhece fronteiras.
Enfrente o mal com a beleza. Desafie as trevas com a luz infinita.
            Tzvi Freeman

6 comentários:

  1. Olá amigo, qto tempo, não sei se esteve por aki, mas como andei viajando dei uma sumida, muito bom o texto, o Mal em si acho que não existe, nós é que o criamos, assim como o dispersamos como vc disse com um pouco de luz! Abraçooosss

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Querida Kellen, paz!
      O mal é sempre a ausência do bem, quando aprendermos a cultivar e preservar o bem que há em cada um de nós o mal certamente não terá oportunidade de se manifestar.
      Muita paz

      Excluir
  2. O mal combate-se com o Bem...não há outra forma.
    Beijo e bom fim de semana.
    Graça

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Querida Graça, paz!
      Você tem razão, não há outra forma de se combater o mal, basta para tanto impedirmos a sua ação através da manutenção e aplicação do bem que há em nós.
      Muita paz!

      Excluir
  3. Maravilhoso texto.
    Feliz dia dos Pais. Abraços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Querida "Filha do rei", paz!
      Obrigado por sua visita e pelos votos.
      Abraços e muita paz!

      Excluir