terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Afinal, quem realmente somos?


Afinal, quem realmente somos?

Longânimo é aquele que suporta pacientemente o mal ou a provocação que lhe é desferida e que, mesmo sabendo estar certo em seu posicionamento, recusa-se a perder a esperança na possibilidade de melhorar seu relacionamento com o ofensor.
O que isso quer dizer?
Quer dizer que apesar de saber que a razão está ao seu lado, que teria todos os motivos para fazer valer os seus direitos, que se tomasse uma atitude mais drástica em relação ao seu ofensor, todos, não somente entenderiam, mas aprovariam sua conduta, ele faz exatamente o contrário: tenta de todas as formas promover a paz e a reconciliação. Mesmo diante da recusa de seu interlocutor, recebendo em contrapartida ainda mais impropérios e sentimentos odiosos ele permanece fiel ao seu ideal: promover sempre a paz e o entendimento.
Salomão dizia que uma pessoa que age assim é melhor que o herói de guerra: “Melhor é o longânimo do que o herói da guerra, e o que domina o seu espírito, do que o que toma uma cidade.” (Pv 16.32)
Certamente, aquele que voltou de uma sangrenta batalha, merece todas as homenagens pelo seu retorno, afinal de contas, estava colocando sua vida em perigo e lutando não apenas por si mesmo, mas pelo bem-estar de toda a nação.
Por mais que tentemos, seria difícil imaginar quantas lutas, angústias e perigos esse soldado enfrentou para manter-se vivo. Apenas aqueles que estiveram com ele no campo de batalha podem dimensionar todo o seu sofrimento, pois passaram pelos mesmos desafios.
Inúmeras foram as vezes em que viu a morte de perto e em certos momentos acreditou que não conseguiria escapar aos ferozes ataques inimigos.
Poucas pessoas são capazes de entender o estado íntimo de homens como esses, que são forçados a matar seus semelhantes para pouparem a própria vida, contrariando princípios que até então regiam suas vidas e praticar atos que nunca imaginaram realizar.
Notadamente, esses homens merecem receber condecorações por tão bravos feitos realizados pelo maior de todos os combates: o de terem conseguido sobreviver a todas aquelas atrocidades.

Hoje em dia também podemos identificar esses heróis. São os nossos heróis urbanos. Convivem entre nós e assim como os soldados que após a guerra caminham pelas ruas sem seus uniformes, também enfrentam seus dilemas e guerras pessoais, mas nem sempre são notados por todos à sua volta.
Eles não pegam em armas de fogo para conseguirem sobreviver; fazem parte, na sua grande maioria os executivos, empresários e políticos, mas também os vemos nas camadas mais pobres da população, em trabalhos subalternos, lutando para sobreviver com os parcos recursos que essa sociedade desumana e cruel lhes impõe.
De um lado temos homens e mulheres bem sucedidos profissional e financeiramente, e de outro, homens e mulheres que se sentem frustrados por não disporem dos meios necessários para galgar posições que a ser ver lhes trariam projeção e tranquilidade.
Todos, à sua maneira, almejam estar em melhores condições, entendendo que com isso sentir-se-ão mais protegidos e amparados.
Não é crime nem pecado almejar um lugar de destaque neste mundo, buscar uma vida mais confortável ou a satisfação de suas maiores aspirações. Creio ser uma necessidade básica de todos os seres humanos essa busca por algo melhor.
Mas infelizmente, muitos daqueles que procuram alcançar seus objetivos, agem como os heróis que voltaram dos campos de batalha: entendem que todos à sua frente são inimigos em potencial e devem ser destruídos.
São homens e mulheres que enfrentam todos os tipos de adversidades e conseguem não apenas sobreviver a elas, mas se fortalecem cada vez mais, preparando-se para novas lutas e conquistas, mas a maioria delas não está preparada para a maior de todas as batalhas: a luta contra si mesmo.
Como é difícil o homem vencer a si mesmo.
No campo de batalha, quase sempre, vence o que está melhor preparado, o mais valente, aquele que dispõe do melhor armamento, que adota a melhor estratégia, mas quando estamos a sós, não sabemos o que fazer em relação a nós mesmos.
Olhamos para os nossos defeitos e achamos que são naturais perante uma sociedade selvagem como a que vivemos.
Olhamos para o nosso descaso em relação ao nosso semelhante e entendemos que se estivéssemos na mesma situação fariam o mesmo conosco e por esta razão não fazemos absolutamente nada para ajudá-lo.
Presenciamos a indiferença que há em nós em relação a Deus e dizemos que se não agirmos ninguém poderá nos ajudar, nem mesmo Ele.
Conseguimos facilmente identificar os erros de todos à nossa volta, mas não conseguimos identificá-los com a mesma facilidade em nós mesmos, apesar de sabermos que estão presentes. A diferença é que quando os erros são cometidos por outras pessoas os condenamos, mas quando somos nós que os praticamos: justificamos.

Você já percebeu como conseguimos justificar todos os nossos defeitos?
Nosso amigo fala mal das pessoas que conhece porque tem inveja delas, mas nós fazemos o mesmo comentário porque queremos ajudá-las...
Nosso amigo não faz favor a ninguém porque é arrogante, e prepotente, mas nós não fazemos porque nunca temos tempo, apesar de estarmos sempre livres para atividades que nos agradem...
Nosso amigo tenta “puxar” o tapete do chefe porque não tem capacidade de ocupar o seu lugar por meios naturais, mas nós fazemos a mesma coisa porque apesar de todos saberem que somos capazes nunca nos valorizam...
Vivemos na época das conquistas.
No inconsciente coletivo, o negócio hoje em dia é conquistar não importa por quais meios. Desde que se obtenha o êxito desejado tudo é válido.
Se desejamos um mundo melhor, olhemos para dentro de nós mesmos e com sinceridade busquemos identificar o que mais condenamos em nossos semelhantes. Com toda certeza identificaremos em nós muitas deficiências de que os acusamos.
Depois de identificá-las, busquemos forças em Deus para nos modificarmos e que a cada nova análise, possamos verificar que estamos condenando mais o que há em nós do que o que há em nossos irmãos.
Quando conseguirmos alcançar esse estágio, com certeza nos sentiremos melhores e veremos o mundo à nossa volta de maneira diferente: ao invés de um campo de batalha no qual lutamos arduamente para sobreviver, veremos um campo fértil onde a Misericórdia e o Amor de Deus necessitem ser semeados e seremos os primeiros a empunhar as nossas novas armas: Amor, compreensão, solidariedade, companheirismo.
Precisamos entender que ao pronunciamos uma frase, nossos ouvidos são os mais próximos de nossos lábios, fazendo com que sejamos os primeiros a ouvir o que expressamos. Sendo assim, procuremos expressar palavras que edifiquem ao invés de destruir, que aproximem ao invés de afastar, que promovam a paz com todos ao invés de disseminar a guerra em toda parte. Deus honrará nossas palavras e nos ajudará a melhorarmos dia a dia.
Que o Eterno nos dê um coração manso e humilde para identificarmos nossas deficiências e principalmente coragem e disposição para superá-las.
Muita paz a todos.



(בן  ברוך) Ben Baruch

2 comentários:

  1. Olá amigo. Sensacional post.
    Lutar contra si mesmo. Tornar-se transparente. Enxergar-se por completo, admitindo vícios e defeitos. Esforçar-se para mudar. E VENCER. Esse deveria ser sempre o nosso objetivo de vida. Grande abraço.

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  2. Olá Ben,
    Obrigada, amigo, por sua visita e seu comentário sempre pertinente e carinhoso.
    Quanto à sua postagem, gostei muito. Devemos todos nos imantar do amor, imprescindível para fomentar todas as nossas ações em sociedade e no lar. Procurar ver dentro de nós mesmos, a alma iluminada e plena de amor para com todos. Saber entender e distribuir a caridade de um sorriso, de um aperto de mão e de um abraço, faz toda a diferença. Dá-nos a tranquilidade de estarmos cumprindo nosso papel de cristãos e dá, ao nosso irmão, o sentimento de sentir-se apreciado e amado como um ser humano tal qual nós o somos.
    Ótimo texto, meu amigo.
    Um grande beijo,
    Maria Paraguassu.

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