segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Estejamos em paz


Todos nós – a menos que sejamos masoquistas – ansiamos por adquirir aquela paz interior que acalme os nossos corações e nos faça olhar para a vida com mais alegria e prazer.
Até mesmo aqueles que detêm o poder em suas mãos a buscam, mas em muitos casos tiranizam seus oponentes, alegando que assim agem em favor do “bem” comum, mas na verdade, suas ações não passam de uma “máscara” que objetivam “legitimar” suas nefastas atitudes e desejos inferiores.
Esse “tipo de paz”, tão comum em todas as épocas, geralmente imposta pela violência é superficial, ilusória e não condiz com a realidade, porque não traz em seu bojo os sentimentos nobres que a deferiam caracterizar.
Aparentemente parecem mansas e tranquilas, mas se olharmos com cuidado verificaremos que estão maquiadas para esconder toda a imundície que os seus idealizadores criaram para pô-la em ação. É dessa forma que agem, na maioria das vezes, os ditadores e lideres laicos ou religiosos que procuram exercer o comando a qualquer preço, alheios às advertências divinas que nos concita à irmandade e à fraternidade mutua.
A paz que o mundo nos oferece se parece muito com o que foi dito acima, por isso é ilusória, perigosa e funesta.
A verdadeira paz brota sempre de um coração sincero que no desejo de agradar ao seu Criador não mede esforços para demonstrar todo o amor que há dentro de si pelos seus semelhantes.
Ela pode ser demonstrada de várias maneiras: um abraço fraterno, um ombro amigo, uma palavra animadora, um olhar de carinho, um ouvido atento ao clamor e ao desespero do necessitado ou simplesmente um aperto de mão que fala mais que muitas palavras quando é dado com sinceridade e amor.
Os que conseguem adquirir esse sentimento possuem um tesouro inimaginável pelos tiranos e pelos déspotas que olham para seus irmãos como seres insignificantes e inferiores, que foram criados, segundo seus pontos de vista, apenas para servi-los.
A verdadeira paz a que todos ansiamos não traz confusão aos sentidos, porque, não sendo imposta não gera constrangimento naqueles que a recebem.
Essa paz é uma dádiva a que todos os seres humanos têm direito, bastando apenas que a persigam como se perseguissem um valioso tesouro que os levará a lugares de refrigério e descanso; a lugares de comunhão com o Criador de tudo e de todas as coisas que existem no Universo.
Se você nesse momento encontra-se em guerras internas, acreditando que nunca haverá ocasião em sua vida para que essa paz se estabeleça e já desistiu de buscá-la, não esmoreça e lute um pouco mais por ela. Quando você a possuir, verá o quanto valeu a pena todo o esforço despendido e perceberá que ele não foi assim tão difícil, pois bastou olhar de forma diferente para o mundo que o cerca para perceber que a grandeza, a bondade e a misericórdia de D’us encontram-se em todos os cantos e ocasiões, somos nós que não as percebemos, mas elas estão lá, aguardando o momento de serem possuídas.
Procure olhar para o seu irmão com mais compaixão, vendo nele uma oportunidade para revelar o grande amor de D’us por ele. Mostre-lhe que a  verdadeira paz, aquela que vem do Alto é um dom de D’us (Sl 29.11), é abundante (Sl 119.165), é perfeita (Is 26.3) e é imensa, como um rio. Assim nos fala Isaías sobre ela: “Ah! Se tivesses dado ouvidos aos meus mandamentos! Então, seria a tua paz como um rio, e a tua justiça, como as ondas do mar.” (Is 48.18)
Sendo assim, ore para que ela se instale primeiramente em seu coração e após alcançá-la, não a deixe “trancafiada” em seu interior, mas coloque-a para fora, fazendo com que ela se espalhe por todos à sua volta.
Se assim agirmos, poderemos vê-la espalhada por todo o mundo e poderemos contemplar a diminuição do sofrimento e das aflições de nosso próximo, que não raras vezes ocorrem porque não conseguiram encontrar essa paz que somente o Senhor pode nos conceder.
Essa é a vontade de D’us para as nossas vidas: que estejamos sempre em paz.  Aceitemos o Seu convite e nos alegremos com Ele.


Shalom Aleichem!
                     
(בן  ברוך) Ben Baruch

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Amor ao próximo em uma sociedade competitiva


                                 
 Como é possível compatibilizar o preceito "Ame o próximo como a ti mesmo"(Lv 19.18) dentro de uma sociedade competitiva onde cada um procura sempre se superar frente aos demais?

 As leis da Torá (Pentateuco Mosaico) foram dadas para refinar o ser humano. Se D'us tivesse nos dado leis fáceis de cumprir, não teria nenhuma graça, nem mereceríamos nenhuma recompensa. De fato, a mitsvá (ordenança) de amar o próximo como a si mesmo é muito difícil. Como a Torá pode exigir isto?
Quando me dói o dedinho do pé, sinto isso muito mais do que ler no jornal que um terremoto acabou com a vida de milhares de pessoas! Portanto, no caso desta mitsvá, a palavra chave é "como" – deve se amar o próximo da mesma maneira como se ama a si; i.e., assim como uma pessoa não enxerga normalmente seus próprios erros, e quando já os percebe, vai justificando suas falhas, é desta maneira que devemos agir com o próximo; procurar justificar seus atos e atitudes que nos incomodam e irritam. Esta é a maneira mais elevada de cumprir esta mitsvá.
Como foi dito acima, esta é uma mitsvá difícil e pode se perceber isso pelo dito do Sábio Hilel que disse ao homem que queria conhecer toda a Torá num pé só: "Não faça ao próximo aquilo que não quer que os outros lhe façam." (Esta é a mitsvá de amor ao próximo, expressa de maneira negativa ou proibitiva.)
Depois Hilel ainda acrescentou: "Esta é toda a Torá (i.e.: 'Você acabou de estudar a Torá inteira num pé só; e se quer conhecer os detalhes, agora vá estudar')." Faz-se a pergunta, como Hilel comparou a mitsvá de amor ao próximo à "toda a Torá"? À primeira vista, é apenas metade da Torá, pois a Torá é composta de leis entre a pessoa e D'us e outras leis entre a pessoa e seu semelhante. Enquanto o amor ao próximo pode englobar as leis entre a pessoa e seu semelhante, como pode também incluir as leis entre a pessoa e D'us?
A resposta para esta pergunta é a seguinte: Como mencionado acima, é impossível ter um amor ao próximo igual a si mesmo. Para chegar a isto, para alcançar este nível de sentir pelo próximo e pensar nele igual ao que se sente e pensa sobre si, a pessoa tem que elevar-se de seu nível físico.
Normalmente eu sou eu e ele é ele; como pode ele ser como eu? Somente quando considero o outro um verdadeiro irmão ou parente próximo, posso chegar a pensar e sentir por ele como por mim, pois irmãos são unidos por laços além do físico apenas. É uma ligação inata, natural e inexplicável somente de maneira racional. Quando uma pessoa pode considerar o próximo como um verdadeiro irmão, realmente conseguirá cumprir esta mitsvá.
Mas como é possível considerar seu semelhante, um estranho, come se fosse um irmão? Somente quando a pessoa se eleva além do plano físico e material e considera o próximo um irmão de alma, pois pelas almas somos todos irmãos; somos almas de um só Pai (trata-se da alma Divina). Quem chegou neste nível – de considerar o próximo um verdadeiro irmão – está dando prioridade à alma sobre o corpo, pois de outro jeito nunca sentirá que o próximo é um verdadeiro irmão.
Quando a pessoa chegou neste nível de dar prioridade à alma, isto é verdadeiramente "toda a Torá", como disse Hilel. Somente com esta explicação chassídica da mitsvá de amar o próximo, é possível entender o que Hilel disse. Sem esta interpretação, continuamos com a dúvida original.
Realmente, o mundo está repleto de competição, cada um querendo mostrar que possui mais ou que consegue mais ou que é maior e melhor em termos sociais, financeiros, etc. E é difícil (porém não impossível) viver uma vida correta no meio de tudo isso. Porém nossos Sábios explicaram por que D'us fez as coisas desta maneira. Se não fosse pelo instinto mal (yêtser hará) de querer superar o próximo, ter mais do que o próximo, ser o maior, etc., o mundo não teria ido para a frente. O que impulsiona o desenvolvimento é justamente esta corrida onde cada um quer buscar e atingir mais. E D'us quer um mundo habitável e não um deserto. Por isso Ele criou o ser humano com esta natureza.
Nossos antigos Sábios queriam abolir o "yêtser hará". Assim sendo se reuniram, rezaram a D'us e pediram e com seu poder espiritual e sobrenatural finalmente conseguiram afastar o instinto mal do homem. No dia seguinte ninguém sentiu nenhuma vontade, paixão, inveja, etc. Parecia um mundo perfeito. Mas por outro lado, ninguém estava com vontade de trabalhar, construir, realizar projetos, etc.; até a galinha não quis botar mais ovos. Então os Sábios entenderam que esta não é a maneira certa de fazer as coisas e que realmente D'us tinha razão em fazer o ser humano ter todas as características humanas, inclusive as de cobiçar as coisas do próximo.
Isto (o fato que D'us deu ao ser humano uma natureza com instintos baixos) é em termos gerais. Mas cada um em particular deve se esforçar para viver sua vida dentro dos parâmetros da Torá e direcionar estes instintos naturais para o bem do próximo. Existe muita gente boa nesta multidão que se dedica ao bem estar do próximo, se ocupa com os pobres, os abandonados, os miseráveis, etc.
Nossos Sábios nos aconselharam a olhar para cima, para quem tem mais em termos espirituais e tentar imitá-lo; e olhar para baixo para quem tem menos em termos materiais e ficar feliz e satisfeito com o nosso quinhão. Sempre tem aquele que encontra tempo para estudar, participar de uma aula de Torá, ligar para a mãe mais frequentemente, fazer um favor mesmo não tendo sido solicitado, e assim por diante. Devemos tomar isso como um exemplo e tentar imitar tal comportamento. Isto significa usar a competição de maneira positiva.
Por outro lado em vez de querer mais para si, vejamos quantas pessoas têm muito menos do que nós. A felicidade não depende da quantidade de dinheiro ou tempo que a pessoa tem e sim da maneira como os aplica para uma boa causa.

Chabad

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A capacidade de questionar


             
            Não há palavras suficientes para descrever o mal, não há imagens gráficas, não há uma imaginação suficientemente doentia para descrever aquilo que nossos avós, irmãos e irmãs, filhos e filhas, bebês e crianças ainda não nascidas suportaram nas garras dos seus assassinos.
Seis milhões de judeus foram assassinados por um motivo e um único motivo. Porque eram judeus. Para nossos inimigos, não importava se o judeu era uma pessoa assimilada ou muito religiosa. Um judeu era um judeu.

Nossos inimigos conseguiram arrancar barbas, torcer a pele, empunhar armas, arrancar dentes e gaseificar corpos. Porém não conseguiram penetrar nas mentes, corações, almas e espíritos. A neshamá judaica nunca foi diminuída, apenas enfraquecida.

A cada ano que passa, devemos relembrar o horror, e como o nosso povo morreu. Porém o mais importante, devemos nos lembrar como eles viveram.


Porém o mais notável, talvez miraculoso, é que havia judeus que se apegavam à Torá – o código moral e legal que tem orientado nossa vida desde o Sinai – durante toda a sua provação. Nos guetos, nos campos de concentração, nas marchas rumo à morte, eles continuaram a consultar a Torá em busca de orientação, fazer perguntas aos seus rabinos e líderes espirituais. Do prático ao moral e ao filosófico, as perguntas demonstram a fé que aqueles mártires tinham no seu Criador, e a que ponto desejavam cumprir Sua vontade.

A maioria das perguntas e respostas nunca foi registrada, e sobre o que elas eram, praticamente tudo isso ficou perdido nos escombros e nas cinzas. Felizmente, alguns preciosos volumes sobreviveram, e são um testemunho daquilo que nosso povo tolerou.
[Uma dessas obras é a Responsa do Holocausto, de Rabi Ephraim Oshry.]
Soldados alemães atormentando judeus - Olkusz, sul da Polônia (31 de julho de 1940)

Estes judeus se preocupavam em saber o que deveriam ou não fazer, segundo a Torá. Quando o mundo não fazia mais sentido, eles ainda procuravam certificar-se de que suas ações, palavras e pensamentos eram puros e sagrados. Quando o mundo ignorou D’us e Seus mandamentos, eles determinaram que não o fariam.
Ao ler estas perguntas e respostas, a pessoa fica abalada pela sensibilidade, o carinho e a consideração sobre cada uma. Mas talvez ainda mais notável que as respostas em si seja o próprio fato de que as perguntas nunca foram feitas, e a maneira pela qual estas almas preciosas parecem não ver nada de "heróico" no fato de as estarem fazendo, considerando-se simplesmente judeus vivendo como judeus.

Uma mulher no gueto que tinha acabado de dar à luz queria saber se poderia circuncidar seu bebê antes do oitavo dia, pois ela temia que ele não vivesse sequer uma semana. Esta mãe amorosa desejava assegurar que pelo menos ele morreria como um judeu circuncidado.

As pessoas perguntavam se deveriam ou não recitar bênçãos sobre os alimentos quando a comida não era casher, ou se poderiam recitar as preces matinais antes do nascer do sol, pois esta seria a única hora em que não seriam notadas.

Um homem muito doente foi avisado que estava fraco demais para jejuar em Yom Kipur, e portanto proibido de fazê-lo segundo a Lei da Torá. Ele implorou para saber se mesmo assim poderia abster-se de comer. Embora tivesse sido não observante durante toda a vida, ele queria morrer sabendo que tinha jejuado em seu último Yom Kipur.
Judeus do Gueto de Lublin sendo levados aos trens
para serem deportados para Sobibor, o campo da morte (1942)
Um pai queria saber se poderia salvar seu único filho, selecionado para a morte certa, por meio de suborno, sabendo que caso seu filho fosse salvo, outro morreria em seu lugar.

Uma mãe perguntou se poderia matar seu bebê de maneira indolor, pois no dia seguinte eles viriam pegar todas as crianças, e talvez atirassem sua filha de três meses de um telhado ou então diretamente no fogo.

Havia judeus que perguntavam as frases certas, e depois praticavam cuidadosamente a bênção que é recitada quando alguém está sendo assassinado al kidush Hashem, pela santificação do nome de D’us.

Estas questões não foram respondidas com base em opiniões ou sentimentos pessoais. Estes judeus queriam saber o que a lei da Torá tinha a dizer sobre estes temas, e era obrigação dos rabinos encontrar as respostas. Esta não era a primeira vez que estas perguntas tinham sido feitas ou respondidas. Somos um povo que sabe muito sobre sofrimento e perseguição. E somos um povo que sempre quis fazer aquilo que é certo, o que é sagrado, independentemente das circunstâncias.

A cada ano que passa, devemos relembrar o horror, e como o nosso povo morreu. Porém o mais importante, devemos nos lembrar como eles viveram. E ao fazê-lo, honramos a dignidade, o poder e a fé que estes judeus tiveram. A coragem da fé é muito mais poderosa do que a covardia do ódio.

Nossos inimigos tentaram nos tornar untermenschen – sub-humanos. Tentaram nos aniquilar, livrar o mundo dos judeus. Mas eles não sabiam com quem estavam lidando. Não sabiam o que significa ser judeu. Pois o judeu não é aquele que meramente se esforça para ser humano. O judeu é aquele que se esforça para ser Divino. E isso nunca, nunca, pode ser destruído.

Sara Esther Crispe
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Sara Esther Crispe é escritora, conferencista inspirada e mãe de quatro filhos. Ela e o marido, Eabi Asher Crispe, atualmente são eruditos-residentes no Chabad do Sudoeste da Flórida.
           
           
                                              

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O melhor alimento do mundo.


O MELHOR ALIMENTO DO MUNDO


É comum nos dias de hoje ouvirmos as pessoas falarem acerca da necessidade de se manter uma alimentação saudável. Dizem os especialistas, que ela deve ser balanceada, a fim de conter o máximo de nutrientes possíveis sem que haja a necessidade de ser consumida excessivamente.
Os benefícios dessa dieta alimentar são evidentes e na maioria dos casos inquestionáveis, exceção feita aos exageros a que alguns se entregam no afã de terem o corpo desejado, segundo o estereótipo idealizado pela sociedade atual.
Apesar de todos os benefícios apresentados, muitos não têm o menor interesse em praticá-la, outros ainda, com o decorrer do tempo acabam negligenciando-a e um sem número de adeptos a abandonam completamente, por entendê-la “complicada” demais.
No âmbito espiritual a situação não é muito diferente.
A Palavra de Deus, a Bíblia, deve ser o nosso principal alimento diário. A sua “ingestão” provoca em nós reações inquestionáveis de bem-estar, paz e alegria, pois trata-se do melhor alimento do mundo. No entanto, até mesmo o Povo de Deus em dado momento acabou deixando-o de lado e depois da “desnutrição” aparente, procurou de todas as formas voltar-se a Ele e ser “alimentado” por Sua Palavra.
Um bom exemplo disse pode ser visto no exílio em Babilônia.
Durante muitos anos o povo de Israel ficou cativo em Babilônia, mais precisamente 70 anos, mas através de um decreto do rei Ciro, Esdras e Neemias foram recrutados para regressarem a Israel a fim de reconstruírem os muros da Cidade de Jerusalém e o Templo Sagrado.
Durante a narrativa do capítulo 8 do Livro de Neemias (8.1-18) percebemos que aquelas pessoas tinham um desejo real em ouvir a Palavra de Deus.
No versículo 3 vemos que os ouvidos do povo estavam atentos ao Livro da Lei: E leu no livro, diante da praça, que está fronteira à Porta das Águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres e os que podiam entender; e todo o povo tinha os ouvidos atentos ao Livro da Lei.”

“... atentos ao Livro da Lei”. Quantos de nós, hoje em dia, temos estado com os ouvidos atentos ao que a Palavra de Deus nos revela?
Certamente poucos.
Vivemos em uma época na qual as transformações sociais e tecnológicas ocorrem com uma velocidade espantosa. Desenvolve-se um determinado equipamento em um dia e no seguinte está praticamente sucateado e com essas mudanças tão rápidas não estamos acostumados a realmente prestar muita atenção aos acontecimentos cotidianos.
Vivemos na época do consumismo por excelência. Buscamos conforto para nossos corpos cansados e para a nossa mente à beira de um estresse profundo; desenvolvemos carros confortáveis, velozes e teoricamente seguros; equipamos nossos policiais com armas cada vez mais potentes e mortais e, apesar de nossos mais sinceros esforços, percebemos que de certa forma as pessoas vivem sedentária e isoladamente e têm cada vez mais necessidade de recorrer a remédios para dormir. Os crimes e a violência aumentam a proporções inacreditáveis no mundo inteiro.
Buscando os motivos que levaram aquele povo a ser escravizado durante tanto tempo podemos perceber que um deles – senão o principal – foi porque seus ouvidos não se preocupavam mais em “estar atentos” ao que Deus lhes falava.
E esse é um comportamento comum ao ser humano: desde a criação, o homem parece disposto a ouvir a tudo e a todos, menos ao seu Criador.
Muitas vezes o motivo de nosso sofrimento está relacionado intimamente ao fato de não darmos ouvidos ao que Deus nos fala.
Provérbio 16.25 diz que: “Há um caminho que ao homem parece perfeito, mas ao fim conduz à morte.”

À medida que o Livro era lido, o povo chorava, porque o que estava sendo relatado não era uma estorinha para crianças dormirem nem um conto folclórico para distrair seus ouvintes, mas a sua própria história daquele povo.
Durante aquela narrativa emocionada e reveladora puderam perceber o quanto Deus os amava e o quanto eles O desprezavam. Puderam perceber o quanto Ele procurava estar com eles e o quanto se afastavam dEle.
Deus levantou um homem, Abraão, para dele fazer uma grande nação que o adorasse e servisse. Deu-lhe poder, riqueza e sabedoria que confundia os seus adversários infinitamente mais numerosos, que não compreendiam como aquele pequeno povo conseguia vencer seus oponentes e se transformava cada vez mais em um Povo forte e temido após cada batalha.
Perceberam durante aquela narrativa o quanto estavam distantes daquele Deus maravilhoso e amoroso que os chamara para transformá-los em uma nação sacerdotal.
Choravam porque percebiam que apesar de tudo que haviam feito Ele ainda estava com eles.
Aqueles homens puderam perceber que o livramento que Deus lhes concedera e as vitórias nas guerras sobre os seus vizinhos era a mais pura demonstração de Seu amor por eles.

Hoje, através dos materiais de estudo disponíveis, podemos contemplar de forma clara, tudo aquilo que aconteceu àquele povo: as suas vitórias e derrotas, as lutas travadas contra seus inimigos e principalmente as lutas travadas contra si mesmos.
Lutar contra os inimigos externos é muito mais fácil do que lutarmos contra nós mesmos.
Contra um inimigo visível, empunhamos as armas e guerreamos. Se formos mais fortes e ágeis conquistaremos a vitória, mas contra nossos sentimentos, vaidades e pecados a coisa é bem diferente e por vezes a luta se torna mais cruenta do que a princípio podia parecer.

Você tem estado com os ouvidos atentos às Palavras que estão contidas na Palavra de Deus?
Aqueles homens perceberam que se tivessem dado ouvidos àquilo que Deus lhes falara, não teriam sofrido tanto, nem passado por tantas humilhações. Se tivessem estado com os ouvidos atentos, como agora estavam, teriam tido uma vida de vitórias e alegrias que somente Deus pode proporcionar.
Diante da comoção geral, Neemias levanta a voz e conforta seus corações para que não chorassem, mas se alegrassem, pois a sua força estava no fato de se alegrarem na presença do seu Deus.
Quando buscamos a Deus com sinceridade podemos perceber a transformação que ocorre no nosso interior:
As lutas parecem menores, os inimigos não são tão fortes assim, as dificuldades não são tão grandes como pensávamos, porque passamos a confiar que Deus está ao nosso lado, lutando por nós, assim como diz Isaías 43.13 “Agindo Eu, quem impedirá?”

Neste episódio narrado por Neemias podemos extrair ensinamentos preciosos para nos alegrarmos no Senhor:

Precisamos estar atentos para ouvir a voz de Deus (verso 3)
E leu no livro, diante da praça, que está fronteira à Porta das Águas, desde a alva até ao meio-dia, perante homens e mulheres e os que podiam entender; e todo o povo tinha os ouvidos atentos ao Livro da Lei.”

Hoje em dia ouvem-se muitas vozes, muitas sendo proclamadas em nome de Deus, mas com o tempo percebemos que não condizem com aquilo que realmente Deus disse ao seu povo.
Quando buscamos a Deus em oração, falamos o tempo inteiro e não paramos para ouvir aquilo que Deus tem para nos dizer.
Muitos dizem não saber como é o timbre da voz de Deus, isso não é um problema porque nenhum de nós jamais ouviu materialmente a voz de Deus, mas certamente todos nós podemos ouvi-la através das páginas da Bíblia, que é o Manual de Deus para o ser humano. Ele nos criou e conhece cada parte do nosso corpo e alma e sabe do que necessitamos para termos uma vida plenamente feliz e realizada.
Quando estudamos a Palavra de Deus com amor é como se a voz do próprio Deus penetrasse em nossos ouvidos e descesse até o íntimo de nosso ser, lavando-nos e purificando-nos de todas as incertezas da vida presente.

Devemos ter reverência diante da Palavra de Deus (verso 5)
“Esdras abriu o livro à vista de todo o povo, porque estava acima dele; abrindo-o ele, todo o povo se pôs em pé.”
Muitas pessoas encaram a Palavra de Deus como um livro qualquer que pode ser deixado de lado quando dele não se faz uso.
Certa vez ouvi alguém dizer que a Bíblia quando está fechada é como um livro qualquer, porém adquire poder e vida quando a abrimos e meditamos em seu conteúdo.
Para nós, judeus, todavia, a Palavra de Deus é digna da maior reverência.
Quando nós, judeus, que somos chamados através dos séculos como o Povo do Livro, colocamos a Torá na estante, Ela deve ficar no lugar mais alto e na frente dos outros livros.Ela tem a primazia.
Após estudar a Torá e outros livros, os mestres da Torá e os religiosos, arrumam os livros sobre a mesa, porém a Torá deverá ficar na parte mais alta, sobre todos os demais.
Quando a Torá começa a se desfazer pelo uso e começa a ficar difícil de ser manuseada ela não é jogada no lixo como um “livro qualquer” nem é vendida como papel para ser reciclada, mas é enterrada em um cemitério, com toda a reverência que e a Palavra de Deus merece.

Precisamos conhecer verdadeiramente a Palavra de Deus (verso 8)
“Leram no livro, na Lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia.”
Só existe uma maneira de conhecer verdadeiramente a vontade de Deus: Estudando a Sua Palavra.
“Lâmpada para meus pés é a tua Palavra” diz o Salmista Davi (Salmos 119.105).
Quando conhecemos a Palavra de Deus conseguimos compreender tudo o que acontece à nossa volta, os problemas que enfrentamos, as lutas que travamos e as vitórias que conquistamos.
Aqueles homens ficaram muito tempo afastados dessa Palavra, mas ao primeiro contato já sentiram a necessidade de vivê-La.
O mesmo deve acontecer conosco. Não basta apenas conhecer a Palavra de Deus é necessário vivê-La com toda intensidade.

Devemos nos alegrar na presença de Deus (versos 10-18)-
Agora eles sabiam que Deus estava no controle e que a partir daquele momento cumpririam com alegria a Sua vontade.
Durante a celebração da festa dos Tabernáculos ou Sucot (Cabanas) deixamos o conforto material de nossas casas e construimos cabanas e nelas habitamos por sete dias, para recordarmos que Deus manteve o povo de Israel por 40 anos no deserto, alimentando-o, protegendo-o e fortalecendo-o para conquistarem a tão sonhada terra da promessa.
Por essa razão, quando você estiver diante de um grande problema ou simplesmente estiver se sentido desamparado e perdido, não desanime nem se entregue ao abatimento, acreditando que não há ninguém que se preocupe com você e com a sua situação, busque conhecer e praticar a Palavra de Deus e verá o quanto você é importante para Ele.
Conheça o que Deus tem para aqueles que O buscam e você verá que grandes coisas o Eterno fará através de sua vida.

Querido amigo (a), nunca deixe de se alimentar da Palavra de Deus.
Ela é o melhor alimento que podemos encontrar neste mundo.
Como diz o Salmista: “Oh! Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais doces do que o mel à minha boca.” (Salmos 119.103)

Muita paz a todos!

                     

(בן  ברוך) Ben Baruch

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Perdão, arrependimento e reconciliação.



Tudo o que fizermos até Rosh Hashaná e Iom Kipur pode selar o futuro de cada um de nós.
Os dez dias que medeiam Rosh Hashaná e Iom Kipur são conhecidos como os dez dias de Penitência ou Retorno. Penitência significa que devemos nos sentir
culpados e tentar remediar o mal que tivermos feito. Se formos suficientemente honestos, logo veremos que agimos mal mais de uma vez. Caso tenhamos enganado nosso semelhante, devemos pedir o seu perdão. Se o nosso pecado é não termos cumprido os mandamentos da Torá, devemos pedir perdão a D’us. Não há ninguém que saiba melhor onde pecamos que nós mesmos. É claro que podemos estar pecando sem termos consciência, mas, normalmente, uma pessoa honesta consigo mesma é quem melhor pode dizer se pecou ou não.
Certa manhã, um rabino fez a seguinte pergunta aos duzentos alunos da ieshivá: ”Quem dentre vocês admite que já pecou algum dia e quem entre vocês pode dizer que nunca pecou em nenhum momento de sua vida?”
Muitos dos estudantes levantaram suas mãos para mostrar que nunca haviam pecado e apenas alguns admitiram ter cometido algum pecado. O rabino então convidou todos os que admitiram ter pecado para que fossem à sua casa. Os que afirmaram nunca haverem pecado estavam muito contentes com eles próprios, afinal eles não seriam repreendidos pelo rabino. Os pecadores confessos se reuniram naquela noite e ficaram muito surpresos: uma grande festa havia sido preparada para eles. O rabino recebeu cada um deles com um alegre sorriso e os entreteve a noite inteira.
No dia seguinte, um dos estudantes perguntou ao seu mestre: “Por que merecemos ser tão bem recebidos após termos admitido que erramos e os nossos colegas, que nunca erraram, não foram convidados para esta maravilhosa recepção?”
O rabino respondeu na presença de todos os estudantes: “É claro que nenhuma pessoa poderá jamais afirmar nunca ter errado em algum momento de sua vida, mesmo com a melhor das intenções escorregamos aqui ou ali. A pessoa que afirma nunca ter feito nada de errado ou não é suficientemente honesta para reconhecer seus erros ou não tem suficiente entendimento para reconhecer que está errada. Eis por que eu preparei uma grande festa para os que foram honestos reconhecendo os seus erros em qualquer momento de suas vidas. Por esta razão temos orações nas quais confessamos humildemente os nossos erros e, se formos realmente sinceros, podemos ter a certeza que D’us nos perdoará. O mesmo se aplica em relação ao nosso semelhante. Se sabemos que outra pessoa está triste por nossa causa, com ou sem razão, devemos conversar e chegar a uma reconciliação. Se por outro lado, tivermos feito algo que o deixou muito zangado, devemos ter a coragem de pedir perdão”.
Poucas pessoas não nos perdoariam se demonstramos um arrependimento sincero pelo mal que causamos. Este é o momento onde devemos retificar tudo o que tivermos feito de errado durante o ano que passou. Se o fizermos sincera e honestamente, podemos ter certeza que seremos pessoas melhores e que o ano que ora se inicia será na verdade um ano feliz e abençoado para todos.
Rabino Yehuda Busquila

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Buscando fazer a vontade de Deus


Buscando fazer a vontade de Deus

É interessante observar o comportamento que muitos de nós temos quando surge diante de nós a possibilidade de mudar o meio em que vivemos; quando recai sobre nós a incumbência de alterar o rumo das coisas que nos cercam. Frequentemente oferecemos resistências às inovações. O novo nos assusta!
Normalmente, quando ainda não passamos por determinadas experiências e temos que enfrentá-las, preferimos nos omitir e temos sempre na ponta da língua a resposta para essas situações: dizemos que temos os pés no chão e por isso não nos aventuramos para não corrermos riscos desnecessários; mas no fundo sabemos que o que nos falta muitas vezes é a coragem necessária para enfrentar desafios. 
Falta-nos a coragem necessária para enfrentar os opositores que quase sempre são os mais próximos de nós, os da nossa própria casa. Isso porque aqueles que nos cercam dificilmente crêem na nossa mudança, na nossa transformação para melhor, mas quando mudamos para pior todos aceitam naturalmente e dizem “Fulano só poderia dar nisso, ele nunca valeu nada mesmo!”.  
Por essa razão a mudança é difícil, mas muitas vezes precisamos passar por esse processo para podermos ser usados como instrumentos úteis nas mãos de Deus.
É necessário uma mudança radical em alguns casos !  Quem traia, não traia mais; quem roubava, não roube mais, quem odiava comece a amar; quem reclamava comece a glorificar e agradecer a Deus que derrama sobre nós bênçãos diárias.
A Torá sempre nos apresenta lições práticas para todas as situações da vida. Vejamos um bom exemplo disso:
“Então, respondeu Moisés e disse: Mas eis que me não crerão, nem ouvirão a minha voz, porque dirão: O SENHOR não te apareceu".  E o SENHOR disse-lhe: Que é isso na tua mão? E ele disse: Uma vara.  E ele disse: Lança-a na terra. Ele a lançou na terra, e tornou-se em cobra; e Moisés fugia dela.  Então, disse o SENHOR a Moisés: Estende a mão e pega-lhe pela cauda (E estendeu a mão e pegou-lhe pela cauda, e tornou-se em vara na sua mão.);  Para que creiam que te apareceu o SENHOR, o Deus de seus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó." (Êxodo 4.1-5)

Esse capítulo do livro do Êxodo reflete bem esta situação: quando Moisés estava debaixo da proteção de faraó, matou o egípcio e foi obrigado a refugiar-se.
Casou-se e talvez o seu coração ainda estivesse quebrado pela ingratidão demonstrada por seus irmãos, quando seu único desejo era o de salvá-los. A saudade de seus irmãos crescia a cada dia e ao ouvir notícias da situação do povo hebreu, que ainda estava subjugado diante de faraó, mais ainda se angustiava e sentia no fundo do seu ser aquele desejo de fazer alguma coisa para mudar aquela situação. 
Ele havia deixado tudo: o conforto da corte, o poder que a ele era conferido, preferindo ser tratado como um dos seus irmãos, escravos naquele momento. Quem toma esta atitude, além de amor necessita ter muita coragem. E Deus honra a fé de seus servos. Deus aparece a Moisés. Fala e ordena-lhe que vá libertar o povo que estava cativo no Egito.  Mas nesse momento crucial de sua vida começaram as evasivas, as desculpas de quem estava querendo se ver livre daquele fardo terrível: a responsabilidade.
Talvez nesta hora Moisés tenha sentido “medo”. Voltar ao Egito significava retornar ao passado. Talvez o sentimento de culpa pela morte do egípcio ainda estivesse latente em sua memória, ou ainda, o desprezo dos filhos daqueles que presenciaram o crime e não entenderam que o que movia o coração dele naquele momento era o desejo de mostrar a seus irmãos que ele também era hebreu e não egípcio; que ele não tinha culpa nenhuma de ter sido salvo das águas do Nilo e ter sido criado como filho da filha de faraó.  Quantas recordações! A sua cabeça fervilhava. Parecia um caldeirão junto ao fogo. Mas ele caiu em si, sacudiu a poeira das lembranças e resolveu render-se à ordem Divina. Pronto ela estava, mas voltar ao Egito? Como? Com que armas? E em nome de quem?  
Não é fácil tomar uma decisão desta. Só a fé pode explicar este comportamento.

Deus disse a Moisés: “Vai e dize ao povo que o Eu Sou te enviou”.
Moisés sabia que era o Senhor, mas daí a enfrentar o povo, vai uma distância enorme.  Ele não iria falar com as ovelhas de seu sogro Jetro. Aqueles homens que estavam cativos no Egito tinham pouca ou nenhuma identificação com os Patriarcas. Não eram nem sombra deles! Os Patriarcas haviam experimentado o privilégio de estarem debaixo da proteção do Senhor, mas os seus descendentes não tiveram a mesma experiência. De maneira que a fé num Deus Único e presente era entendida mais no contexto religioso aparente do que verdadeiramente existencial, ou seja, eles acreditavam no poder e no cuidado de Deus, mas nem tanto assim.
Isso tudo passa pela cabeça de Moisés e nessas idas e vindas de sonhos e realidades ele cai definitivamente na real e diz ao Senhor: “mas eles não crerão em mim, eles dirão: O Senhor não te apareceu”. Deus não fica “batendo boca” com Moisés. Deus não tenta convencê-lo com palavras persuasivas de sabedoria humana para que ele compreenda o que estava sendo entregue nas suas mãos.  
E o Senhor pergunta-lhe: Que é isso que tem nas mãos? Moisés deve ter pensado: Ele deve estar brincando comigo. Eu estou aqui falando de uma coisa séria; falando acerca das possibilidades de libertação do povo hebreu e o Senhor me pergunta o que eu tenho nas mãos. Como se Ele não soubesse. Ele que criou a tudo e a todos. Mas quem sou eu para retrucar com o Senhor.
E Moisés responde: Uma vara. Então disse o Senhor: Lança-a na terra. Moisés pensa: Deve ser brincadeira. Ele deve estar querendo me acalmar, passar o tempo. Tudo bem, o Senhor falou está falado. Ele a joga no chão e a vara se transforma em cobra. “E Moisés fugia dela”.  
O Senhor diz a ele que a pegue pela cauda. Assustado ele a pega pela cauda e a cobra voltou a ser uma vara em suas mãos e o Senhor complementa: para que creiam que te apareceu o Senhor Deus de seus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó.  Para Moisés era apenas uma vara, um pedaço de madeira. Mas nas mãos daquele que formou tudo a partir do nada, Ele queria mostrar a Moisés e ao povo hebreu que o Seu poder era superior a toda e qualquer dificuldade. Moisés estava de certa forma limitando o poder de Deus.
A vara que Moisés trazia consigo foi o instrumento utilizado por Deus para manifestar a sua graça e, essa mesma vara acabou se tornando no canal da bênção para Moisés e para o povo hebreu. Mas frequentemente, para alguns, o canal da bênção pode se transformar em algo perigoso quando utilizado de forma errada. A vara se transformou em cobra para nos ensinar que quando os recursos que Deus coloca em nossas mãos são usados de forma errada, acabam ferindo em lugar de proteger ou acabam matando ao invés de curar.  
Isso acontece principalmente com aqueles que são usados por Deus para anunciarem a mensagem Divina. Ao invés de falarem acerca do poder salvador que Ela possui, acabam enfatizando a busca das bênçãos materiais e financeiras, segundo a sua visão e não segundo a visão e as promessas do Senhor outorgou aos que O buscam.  
A vara que Moisés utilizou para abrir o mar vermelho e demonstrar o poder de Deus foi a mesma que fez com que ele pecasse. O Senhor ordenou que ele simplesmente tocasse na rocha para que dela emanasse água para saciar a sede do povo, mas Moisés, ao invés de tocá-la, acabou batendo com violência na rocha e por causa dessa atitude, que aos olhos de Deus foi vista como um ato rebelde perdeu Moisés a bênção de entrar na terra prometida. Aquela terra que manava leite e mel e por cuja conquista ele tanto lutara, orientando e conduzindo aquele povo rebelde e insubmisso passou a ser um terreno proibido para ele.  
As coisas simples e pequenas podem se transformar em grandes canais ou instrumentos da graça de Deus, quando nos colocamos debaixo de Sua vontade.  
Temos a história de uma senhora, viúva de um dos discípulos do profeta Eliseu, que o procura e relata-lhe que depois da morte de seu marido, acabou contraindo muitas dívidas e como não tinha com que pagá-las seus filhos seriam tomados como escravos para pagamento das mesmas. Ela pede socorro a Eliseu e este a princípio tentou se esquivar, mas caindo em si e vendo a sua necessidade perguntou à mulher: O que é que tens em casa? Só uma botija de azeite, respondeu ela. O profeta lhe disse: Pegue vasilhas vazias pela vizinhança e depois feche a porta de sua casa e encha todas as vasilhas que conseguir, depois de cheias, vá ao mercado venda-as e com o dinheiro pague a sua dívida e com o resto vivam você e seus filhos.  
Aquela mulher apesar do seu estado desesperador colocou-se diante da vontade de Deus com aquilo de que dispunha.  Às vezes pensamos que para sermos usados por Deus precisamos ser os melhores, os mais intelectuais, os mais ricos, esperamos estar mais maduros para servirmos a Ele. Dizemos: Ah! Senhor, eu não tenho experiência nesta área, quem sou eu para cumprir esta tarefa? A covardia e a negligência estão estampadas em nosso rosto e pensamos que podemos enganar a Deus. Deus conhece as nossas limitações e se fosse depender da nossa capacidade não seria Deus e sua obra nunca se realizaria. Não é somente a sua capacidade intelectual que Deus quer usar. Ele vai aproveitar isso também.  
O Senhor está perguntando hoje a você: O que é que você tem nas mãos? O Senhor quer fazer de nós um canal de bênçãos, mas para que isso aconteça precisamos apresentar-lhe, além das capacidades naturais que possuímos, pelo menos três possibilidades para que sejamos usados por Ele:

1º Precisamos estar dispostos a servi-Lo!
Isaías se reconheceu pecador e incapaz, mas apresentou-se a Deus, disposto a fazer o melhor e depois que foi tocado com a brasa em sua boca, ele ouve o apelo do Senhor e se prontifica a servi-Lo e o Senhor lhe diz: A quem enviarei e quem há de ir por nós? Nesta hora, Isaías não se fez de rogado e respondeu: Eis-me aqui, envia-me a mim!   
Disposição em servir significa fazer a vontade daquele que envia. É a posição do servo: ele não questiona o que faz o seu Senhor, mas simplesmente obedece.  Se você quer ser usado por Deus esteja disposto a servi-Lo. Mesmo que muitos se levantem contra você, mesmo que você se sinta incompreendido, perseguido, humilhado ou rejeitado não desista.
Tudo neste mundo é passageiro: as alegrias são efêmeras, as paixões acaloradas esfriam, os bens materiais são consumidos com o tempo, as dores físicas e morais acabam sendo superadas, a humilhação e o desprezo cicatrizam, e isso ocorre tanto aos justos como aos injustos.  Por isso disponha-se a servir na certeza de que algo bem melhor está sendo preparado para você no mundo vindouro.
Não fique escolhendo muito o que fazer. Procure não fazer somente o que lhe agrada, mas aprenda a fazer o que é necessário.
Às vezes o que você gostaria de fazer pode necessitar de um preparo maior e mais demorado, mas você pode participar de outras atividades enquanto não estiver preparado para fazer aquilo que tanto lhe agrada.

2º- Devemos buscar a Santificação
Diz o texto bíblico: “Portanto, santificai-vos, sede Santos, porque Eu Sou Santo” (Levítico 20.7).  
Fomos criados à imagem e semelhança de Deus, precisamos mudar a nossa maneira de falar, não podemos mais usar o linguajar do mundo, recheado de palavrões ou palavras maliciosas.
A busca da santificação passa pelo terreno da transformação integral de nossos costumes e nessa área não existe a possibilidade de se fazer concessões, pois como diz o Salmista Davi “Um abismo chama outro abismo...”(Sl 42.7)

3º- Precisamos ser fiéis
Muitos entendem que a fidelidade está condicionada somente a entrega dos dízimos, mas fidelidade é algo que se estende ao nosso dia a dia, à nossa maneira de viver. Ser fiel é agir de acordo com a vontade de Deus, envolve lealdade ao Senhor e à Sua causa.
Isto me faz lembrar o que está escrito no livro de II crônicas 18 sobre a vida de 3 homens: 2 reis e um profeta de Deus: O Rei Josafá foi certamente o rei mais temente a Deus após a divisão do Reino de Israel, mas existiu um momento em sua vida que, talvez cansado da tranquilidade que Deus lhe concedeu, desejou aventurar-se sem a Sua aprovação e resolveu fazer aliança com o Rei Acabe, sanguinário e idólatra, marido de Jezabel, a mesma que desejou lançar não da vida do profeta Elias após a luta travada e vencida pelo Senhor contra os profetas de Baal. Acabe, aproveitando o momento de incertezas pelos quais passava Josafá preparou uma armadilha para que este fosse morto em batalha e para isso induziu-o após uma noitada em seu palácio a fazer aliança com ele. 
Depois de formada a aliança Josafá não tinha como voltar atrás e decidiu consultar algum profeta de Deus. Acabe sugeriu vários profetas de seu reino, mas como Josafá não sentiu neles a presença do Senhor solicitou de Acabe um novo profeta. Este menciona o nome do profeta Micaías, mas adverte que este sempre profetizava contra os seus planos e passou a denegrir o nome do profeta.  
Josafá tinha tudo para entrar no “embalo” de Acabe, mas ao invés de agir assim, advertiu-o de que não deveria falar aquelas coisas contra os servos de Deus.
Nós também deveríamos proceder como Josafá, mas muitas vezes, senão na maioria delas, agimos como Acabe, nos lançamos a difamar os homens de Deus como se isto Lhe fosse agradável.  
Ser fiel é procurar fazer a vontade de Deus, buscá-Lo com todo o nosso entendimento e desejo sincero de crescer em sabedoria, não a sabedoria acadêmica que o mundo pode nos oferecer, mas a sabedoria que vem de Deus e que nos faz passar e suportar afrontas de toda espécie.  

Precisamos ser fiéis à Palavra de Deus, não importa o quanto isto nos custe.

Muita paz a todos!
(בן  ברוך) Ben Baruch

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Quatro Motivos Para Ser Feliz



1. Porque é uma boa maneira de fazer as coisas.
Para citar o clássico chassídico Tanya, por Rabino Shneur Zalman de Liadi (1745-1812): “Assim como no caso de duas pessoas lutando, cada qual tentando derrubar a outra, se uma delas se move com letargia, será facilmente derrotada e cairá, mesmo que seja mais forte que o oponente. Assim também, ao lutar contra a má inclinação, pode-se prevalecer contra ela… somente com o entusiasmo que vem do júbilo e de um coração livre e purificado de todo traço de preocupação e tristeza.” Aplica-se à luta, batalhas morais e tudo que está no meio.

2. Porque é uma coisa boa a se fazer.
Por que a alegria deveria ser apenas um instrumento, um meio para um fim? É uma coisa boa por si mesma, uma maneira melhor de ser. E não é tão difícil de conseguir. Concentre-se em todas as boas coisas que você tem e das quais você faz parte, e em como são mais reais e duradouras que aquelas coisas não tão boas. Portanto, mesmo que essas últimas estejam desempenhando um papel importante em sua vida, não fazem parte dela. Empurre-as para fora e coloque em cena os verdadeiros jogadores.

3. Porque é uma ocasião feliz.
Ser feliz às vezes é difícil de conseguir, como no motivo 2 acima. Porém há épocas em que a felicidade está no ar, e tudo que você precisa é abrir-se a ela e permitir que entre em sua alma. Estamos agora numa época dessas. Nossos Sábios nos dizem que: “Quando entra o mês de Adar (Fevereiro/Março), o júbilo aumenta.” Como Haman infelizmente (para ele) descobriu, é um tempo em que acontecem coisas boas para o povo judeu. Não precisamos fazer nada para senti-las – apenas não as mande embora.

4. Porque é isso que você é.
Este na verdade não é um “motivo”, portanto creio que significa que na verdade há três razões, não quatro. Os mestres chassídicos nos dizem que nossa alma é “literalmente uma parte de D’us”. Portanto o júbilo, em última análise, não é uma técnica a dominar, nem uma meta a atingir, nem mesmo um estado ao qual se entregar. É aquilo que somos, em virtude do nosso vínculo com Aquele que “Força e alegria são Seu lugar” (Crônicas 16:27). Por que se esconder daquilo que somos?

Se você não gosta de generalizações, não leia este artigo. O que se segue é uma versão simplificada e resumida da história de vida de um típico ser humano do sexo masculino.

Começamos indomáveis, puxando a correia, querendo lutar contra isso que chamamos de vida. “É este o mundo ao qual vocês me trouxeram?” dizemos aos mais velhos: “Mudaremos isso, mudaremos aquilo, consertaremos algumas coisas, acabaremos com o mal, reviveremos o bem, esperem só para ver!”

Então saímos e durante dez, vinte anos, estamos no auge. Sofremos, labutamos, agonizamos, celebramos nossas vitórias, e gritando de alegria, voltamos à batalha. Mas tudo isso, é claro, termina por arrefecer. Começamos a perceber o quanto nossa vitórias são pequenas, como são superficiais as nossas agonias. “Vá devagar,” começamos a nos dizer cada vez com maior frequência. “Relaxe.”

Aprendemos a saborear os pequenos prazeres da vida. Ei, dizemos a nós mesmos (e às gerações mais novas, mas elas não entendem), a vida é isso aí. Encontre o seu nicho, pague suas contas, fale com as pessoas, escute música, relaxe.

Então durante dez, talvez vinte anos, relaxamos. E então, um dia, percebemos o que está faltando; não estamos mais nos diivertindo! E nos perguntamos: é só isso que há? Se o objetivo é só paz e sossego, então jamais ter nascido teria sido calmo e sossegado também, não é?

O que vem em seguida? Podemos ficar encalhados ali, na rotina de uma crise da meia-idade que se estende até o fim da vida. Ou podemos redescobrir a exuberância da vida – embora num local mais profundo, mais intrínseco que a nossa juventude destruidora de dragões.

Na Torá, estes dois estados do ser estão incorporados em duas personalidades: Nôach (Noé) e Yitschac (Isaac).

Nôach foi um sobrevivente. Num mundo mergulhado na corrupção, ele permeneceu leal. Quando o Dilúvio engolfou a terra, Nôach encontrou abrigo em sua arca, dentro de cujas paredes prevalecia um idílio quase messiânico. O leão habitou sob o mesmo teto que o cordeiro, e a tormenta que rugia lá fora foi mantida afastada.

Na Torá, um nome é tudo: decifre o nome de uma pessoa ou de uma coisa, e terá descoberto sua essência. Nôach em hebraico significa – calma e tranquilidade. Conhece aqueles aposentados felizes? Nôach é um deles.

Isaac – Yitschac em hebraico – significa “risada”. No caso de Yitschac, a conexão com sua história de vida não é imediatamente aparente. Tendo isso em vista, ele não é a figura exuberante que seu nome sugere. Na verdade, ele é quase invisível embora seja dos três Patriarcas o que mais viveu, a Torá não fala muito sobre ele. Há um capítulo contando como seu pai estava preparado para sacrificá-lo, um capítulo sobre como o servo de seu pai escontrou uma esposa para ele, e um capítulo sobre como sua esposa e filho o enganaram. Mas o que Yitschac faz?

Bem, sabemos que ele trabalhava a terra e plantava – o único dos três Patriarcas a fazê-lo (Avraham e Yaacov era pastores). E há uma narrativa detalhada dos poços que ele cavava.

Yitschac nos ensina que, em última análise, o riso da vida vem – paradoxalmente – do trabalho discreto. Se você deseja biografias escritas sobre você, torne-se um guerreiro. Se está procurando tranquilidade, torne-se pastor. Porém se é júbilo que procura, seja fazendeiro e cavador de poços. Arar e semear, quebrar os torrões de terra do seu mundo para persuadir a vida a brotar do seu solo. Cavar, cada vez mais profundo abaixo da superfície de sua existência, para fazer brotarem as fontes de deleite.

A tranquilidade é algo bom, mas não é uma razão para viver. O júbilo vem da conquista: das campanhas para matar dragões na juventude, mas em última análise vem da autoconquista que é a batalha mais feroz e mais silenciosa da vida. Conhece aquelas pessoas calmas, despretensiosas, levando sossegadamente a vida, espumando de alegria interior? Estes são os Yitschacs do mundo.

Há uma palavra multifacetada em hebraico, toledot, que significa “rebento”, “produto”, “realização” e “história de vida”. O Rebe enfatiza que há duas parshiyot (leituras da Torá) que começam com as palavras “Estes são os toledot de…” Há a parashá que começa “Estes são os toledot de Nôach” (Bereshit 6:9), e a parashá que começa “Estes são os toledot de Yitschac” (Bereshit 25:19). A primeira parashá, que relata a história da vida de Nôach, é chamada Nôach. A segunda, que é a única centralizada na personalidade de Yitschac, é chamada simplesmente de Toledot.

Como os nomes são importantes, o que a Torá está nos dizendo?

Que a história da vida de Nôach é a história de Nôach; porém a história de Yitschac é a história da própria vida. Aquele homem pode começar como um bronco imaturo e crescer até ser um Nôach, mas por fim ele deve descobrir seu Yitschac interior.

E quanto à mulher? Com as mulheres a história é a mesma – apenas não demora tanto para elas entenderem.

Yanki Tauber
Chabad