sábado, 6 de agosto de 2011

As aparências enganam

A cultura ocidental continua seu experimento de trocar o amor pelo sexo, felicidade por prazer, compromisso por relacionamentos em série, eliminando a palavra “não” do vocabulário do desejo.
A história era tão triste quanto a manchete. Meninas têm sido persuadidas pelo Big Brother, modelos de glamour e pela hiper-sexualização da vida diária a se vestirem de modo chamativo muito antes de atingirem a maturidade emocional. Elas o fazem para se tornar populares e porque temem a rejeição se não o fizerem.

O resultado, dizem os psicólogos, tem sido um aumento nos sintomas de perturbações emocionais, desordens alimentares e doenças depressivas. Quanto mais as jovens se tornam obcecadas pela sua aparência, menos vão bem nos estudos. Elas criam ambições estranhas – 63 por cento das meninas disseram que queriam ser supermodelos em vez de médicas ou professoras, e a quarta parte pensava que ser dançarina de boate era uma boa profissão.

Aqui existe algo profundamente lamentável. Buscar a popularidade através da aparência é enxergar-se como um objeto, em vez de uma pessoa. Foi contra isso que as feministas com razão lutaram em nome da dignidade e valor pessoal. É também parte da morte inexorável da infância e a perda do seu espaço protegido. Como perdemos rapidamente os ganhos pelos quais os reformadores do Século Dezenove lutaram. Naqueles tempos seu alvo era a exploração de crianças como trabalhadores. Hoje as crianças são exploradas como consumidores, uma forma mais leve de escravidão, porém mesmo assim um tipo de servidão.
A ironia é que isso foi feito em nome da liberdade. Porém a liberdade de ser tornou-se a liberdade de comprar, que por sua vez se transformou na tirania da moda. Portanto os anunciantes vencem, a inocência perde, e crianças são oferecidas como sacrifícios para a mais nova forma de idolatria.

A libido, o impulso sexual, sempre foi um dos mais poderosos determinantes do comportamento, e é por isso que a maioria das civilizações tentou, com maior ou menor sucesso, canalizá-la para formas construtivas como o casamento. Uma das mais notáveis destas formas tem suas raízes na Torá. Aquilo que é surpreendente Torá é a maneira pela qual ela reconhece candidamente a beleza e a força do desejo físico, como na obra O Cântico dos Cânticos. Porém algo está expresso numa forma de promessa de compromisso mútuo, transformando o desejo em amor, e o amor num vínculo de fidelidade e lealdade. Os heróis e heroínas da Torá – Avraham e Sarah, Elakanah e Hannah, Ruth e Boaz – são pessoas que se tornaram extraordinárias pela sua devoção uma à outra.
Num ousado gesto religioso, os Profetas viram o relacionamento ideal entre D’us e nós em termos de relacionamento entre marido e mulher. “Eu te consagrarei para mim para sempre, eu te consagrarei para mim em integridade e justiça, amor e compaixão, eu te consagrarei para mim em fidelidade e tu conhecerás o Eterno,” diz D’us através do Profeta Hosea.

A civilização é a subjugação da natureza pela cultura. Freud a definiu como a capacidade de adiar a gratificação do instinto. O Judaísmo, de maneira menos puritana, viu-a como a santificação do desejo através de sua sublimação no grande ideal de famílias, lares e comunidades construídas sobre o amor, confiança, parentesco e responsabilidade. Por qualquer um destes padrões, a cultura contemporânea é uma regressão a uma forma de barbárie, branda, porém não menos corrosiva da alma. O resultado, como disse Theodore Dalrymple,
é uma sociedade na qual os adolescentes são adultos precocemente, e os adultos são permanentemente adolescentes.

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