segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Presente da Imperfeição

Pergunta: Considero Yom Kipur deprimente. Por que passar um dia nos concentrando em nossos pecados e fracassos? Precisamos ser lembrados do quanto estamos longe de ser perfeitos?

Resposta: Por Aron Moss

Yom Kipur é uma celebração do ser humano. E ser humano significa ser imperfeito.

A falha humana é tão previsível, que D’us colocou no calendário um dia anual do perdão. Não é um feriado opcional somente para aqueles que pecaram. Yom Kipur vem todo ano para todas as pessoas. É como se fosse esperado que pecássemos, que sempre haverá falhas que temos de reparar. D’us não está tão surpreso pelas nossas faltas a ponto de permitir um dia de limpeza por ano. Jamais se esperou que fôssemos perfeitos.

Em todo Yom Kipur recebemos um bilhete de D’us dizendo algo mais ou menos assim:

“Eu sei que você é humano. Os humanos não são perfeitos. Eu os fiz desse jeito, e os amo mesmo assim. Na verdade, é por isso que Eu os amo – porque vocês não são perfeitos. Eu já tinha a perfeição antes de criar vocês. O que Eu desejo da criação é um mundo imperfeito que se esforça por melhorar, repleto de seres humanos que falham, se levantam e vão em frente. Ao ser imperfeito mas apesar disso perseverar, você cumprirá o propósito da sua criação. Conseguiu a única coisa que não posso fazer sem você – você trouxe o D’us perfeito a um mundo imperfeito.

Obrigado.
Com amor,
D’us.”

Para todos nós que não somos perfeitos, Yom Kipur é nosso dia. Em vez de ficarmos deprimidos pelos erros, nós os celebramos. Todo pecado, cada escorregão, cada tentativa falha de corresponder ao nosso potencial é outra oportunidade de crescer e melhorar. Falhar em nossa missão é em si mesmo parte da nossa missão.

Yom Kipur é o dia no qual D’us nos agradece por sermos humanos, e agradecemos a Ele por não sermos perfeitos. Se fôssemos, não teríamos nada mais a fazer.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

A boa ação sempre transforma!


A boa ação sempre transforma


Ao longo de nossa caminhada, encontramos muitas oportunidades para realizar boas ações, e muitas vezes nem percebemos. Podemos consolar alguém em sofrimento, auxiliar alguém necessitado por diversos motivos ou ainda ajudar a levantar o caído, que tantas vezes, pressionado pela sociedade e pelas circunstâncias, sente-se abatido, desanimado e sem forças para prosseguir vivendo.
É nessas horas que devemos nos lembrar que apesar de "o dia de hoje jamais acontecer novamente, uma boa ação pode fazê-lo durar para sempre", por isso faça com que o seu dia seja especial: espalhe carinho, amor e atenção por onde passar e sem perceber você estará ajudando na construção de um novo mundo, onde as diferenças diminuam e a solidariedade aumente na proporção do amor que sua atitude irradia.
Você ainda não percebeu uma oportunidade para praticar uma boa ação no dia de hoje?
Não se envergonhe por isso, ainda dá tempo. Olhe à sua volta e encontrará motivos de sobra para realizá-la.


(בן  ברוך) Ben Baruch

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Eu só quero ser feliz!


Eu só quero ser feliz!

Com certeza esse é o desejo todos nós que habitamos neste abençoado planeta.
Muitos questionam sobre os motivos que me levaram a abraçar durante muitos anos o Judaísmo e a abandonar – dizem eles – o Cristianismo, mais propriamente a Igreja Evangélica. Não me alongarei em explicações e só decidi escrever a respeito por acreditar que outras pessoas possam estar vivendo a mesma situação na qual me encontrei há alguns anos.

Creio que a fé é questão de foro íntimo e não deve ser imposta a quem quer que seja, por esta razão não influencio, intimido ou obrigo nenhum familiar a seguir os meus passos. Todos permanecem cristãos evangélicos e me orgulho deles, porque sei da sinceridade de cada um deles em relação a Deus.
Sou Bacharel em Teologia, formado por um Seminário Batista e sei separar perfeitamente os cristãos sinceros dos fanáticos de “plantão”.
Meditando acerca dos acontecimentos atuais e do comportamento de grande parte da Humanidade, posso, com toda certeza, afirmar que apesar de buscar intensamente ser feliz, na verdadeira acepção da palavra, eu não era e se continuasse crendo da mesma maneira, dificilmente poderia me considerar uma pessoa plenamente feliz.
Pode parecer que sou pessimista ou depressivo e que na minha visão tudo que existe no mundo é sem graça e que a felicidade é impossível a todos, mas esse não é o meu caso. Penso que podemos ser felizes aqui e agora, desde que façamos as escolhas certas e sigamos em frente, reconhecendo nossas limitações e permitindo que Deus trabalhe em nossas imperfeições. Com isso, acredito que ainda poderemos alcançar a tão esperada felicidade.
Antes de continuar vamos estabelecer certas verdades nas quais eu creio:
1)    Creio em um Deus de infinita misericórdia e amor que criou o Universo e tudo que nele existe e que provê os meios necessários para que suas criaturas estabeleçam com Ele uma relação de Pai e filho;
2)    Creio que todos nós fomos criados para sermos felizes;
3)    Creio que a maldade existente no mundo é fruto da ignorância e da crueldade humana e que nada têm a ver com a predestinação de cada um para fazer o bem ou o mal, quando da sua criação, muito menos pela semente do pecado que, dizem alguns, existi em cada um de nós.
4)    Creio que devemos viver integralmente os ensinamentos Bíblicos, assim como nos foram transmitidos e não como alguns líderes os têm passado.
Sendo assim, porque me sentia infeliz dentro da Igreja Evangélica?
Olhando para a Igreja Cristã da qual fiz parte por muitos anos – e da qual me desliguei por questões puramente teológicas – e para os seus ensinamentos, não consigo ver neles os aspectos que creio existirem em Deus e que estão estampados nas Sagradas Escrituras. E não são poucos os questionamentos que cercavam a minha mente e ficavam sem respostas concretas e palpáveis, porque as respostas clássicas dadas pelos líderes cristãos não satisfazem nem convencem a ninguém que verdadeiramente vê em Deus um Pai amoroso e misericordioso.
Eu não podia me considerar feliz aceitando o ensinamento de que um Deus misericordioso que cria a todo instante espíritos para viverem neste mundo e que em criando-os destine uns para o gozo eterno e outros para a perdição eterna, pois sendo Ele Onisciente, sabe de antemão os que serão bem-sucedidos e os que fracassarão em sua caminhada.
Eu não podia ser feliz quando via pessoas arrogantes e preconceituosas que por reconhecerem a Jesus como Senhor e Salvador pessoal herdarão a vida eterna enquanto outras, simples e ignorantes, mas honestas e bondosas, estarão fadadas ao fracasso e à condenação eterna por professarem uma fé diferente daquela estabelecida e entendida como sendo a única forma de se agradar a Deus.
Eu não podia ser feliz aceitando a possibilidade de que se um homem como Hitler se arrependesse de suas crueldades nessa existência e entregasse sua vida a Jesus, tivesse, nesse simples gesto, mesmo que sincero, seus pecados perdoados imediatamente e fosse morar no Céu, vivendo uma vida de paz e alegria eternas, enquanto seis milhões de judeus foram diretamente para o Inferno, segundo o entendimento cristão, por não reconhecerem em Jesus o Messias esperado pelo povo judeu.
Eu não podia ser feliz aceitando o ensinamento de que Deus na sua Onisciência crie seres que habitarão as mais remotas partes do mundo e que nunca ouvirão falar acerca de Jesus, da sua vida e dos motivos que o trouxeram a este mundo – segundo os ensinamentos cristãos – e por essa razão sofrerão as penas do fogo eterno, assim como acontecerá com tantos muçulmanos, animistas e tribos isoladas que nunca ouviram e com toda certeza nunca ouvirão falar acerca de Jesus.
Eu não podia ser feliz diante do ensinamento de que as crianças que nascem com deficiências físicas e mentais estejam destinadas a sofrerem nesta e na outra vida, porque não tendo consciência de quem são nem de que exista um Deus que as criou, não tenham a possibilidade de se arrependerem dos “pecados” cometidos, muito embora passem por esta vida sem nem saberem quem na verdade são ou o que fazem aqui, quanto mais terem compreensão de que se tornaram pecadoras porque foram geradas em pecado segundo esse entendimento religioso.
Eu não podia ser feliz aceitando passivamente que enquanto algumas pessoas nascem na mais profunda miséria moral e física, vivendo em meio às guerras e vendo na morte do inimigo a única forma de sobrevivência, irem para o Inferno, enquanto outras que nascem em palácios, cercadas de criados, com inúmeras possibilidades na vida, levando uma vida fútil e sem proveito, apesar de um dia terem dito que reconheceram o sacrifício de Jesus na cruz do calvário e por esse simples gesto já estão com seus nomes inscritos no Livro da Vida, pois “uma vez salvo, sempre salvo”, ou seja: quem entregou a sua vida a Jesus não pode perder a sua salvação, apenas receber menos galardão nos Céus.
Se você tem respostas convincentes para essas questões, por favor me diga quais são, mas por favor não venham me dizer que são os mistérios de Deus se cumprindo e que todos temos as mesmas oportunidades de praticar o bem ou o mal, porque da forma como são colocados hoje em dia esses argumentos não se sustentam.
Peçamos a Deus o entendimento necessário para esses questionamentos e que Ele nos ajude a respondê-los de forma a nos convencermos integral e não superficialmente, pois eles ajudarão muitos à nossa volta, que neste momento se fazem as mesmas perguntas e não encontram respostas que lhes satisfaçam o coração e principalmente a razão.
  

Muita paz a todos!

(בן  ברוך) Ben Baruch

domingo, 28 de agosto de 2011

Amanhãs!

Durante uma recente excursão, fiquei surpreso ao ver-me cercado por um mar de "amanhãs". Não, não se tratava de uma visita a uma maternidade, nem à classe do maternal de uma escola, onde o brilhante potencial de crianças pequenas nos proporciona um tangível sendo do "amanhã", i.e., o futuro, vital e promissor. Embora seja verdade que eu sempre sinta o entusiasmo do "amanhã" quando estou com os pequeninos, a sensação que estou descrevendo vinha exatamente do lado oposto do espectro - o cemitério.
Todas juntas, as pedras tumulares contam a história de amanhãs que jamais virão, e juntos, muitos de nós estamos esboçando epitáfios similares para nós mesmos.
Meus deveres oficiais como rabino de uma comunidade levam-me, mais vezes do que eu gostaria, aos silenciosos campos onde as gerações que nos precederam foram para descansar. Se a pessoa olha em torno e escuta atentamente o sossego, há uma inquietante consciência de uma multiplicidade de (na falta de uma palavra melhor) "amanhãs" - uma profusão de coisas que poderiam ter sido, deveriam ter sido, talvez fossem, teriam sido... mas para "amanhã."
Tendo crescido em Milwaukee, e trabalhado por 40 anos no rabinato, consigo olhar em torno, não importa qual o cemitério que estou visitando, e reconhecer muitos nomes familiares, pessoas de quem me recordo da minha infância ou depois. Muitas vidas vividas em grande distinção. Os restantes, em geral, foram cidadãos de bem, devotados à família e à comunidade, judeus que deixaram um legado de trabalho e integridade. É por este último grupo que fico tão entristecido. Porque não apenas me lembro de quem foram, mas de quem poderiam ter sido, se não tivessem dissipado seus "hojes" em troca de seus "amanhãs".
É claro que todos fazemos isso; a procrastinação é tão antiga quando a própria humanidade. Porém o mero dilúvio daquilo que o passado adiou para "amanhã" elevou-se como uma densa névoa sobre o campo, lançando uma sombra pesada e longa sobre o solo.
Minhas reflexões levaram-me de volta ao presente, à família, meus amigos, e a mim mesmo. Cada um de nós tem muitas coisas que preza e espera realizar durante a vida. Invariavelmente, são conquistas importantes, do tipo que se constitui em legados duradouros. O que fazemos sobre estas aspirações? Adiamos para "amanhã" - é claro! Hoje estamos muito ocupados, muito sobrecarregados, e muito exigentes. Com uma constância infalível, amanhã será um outro hoje, repleto e agitado com exigências que descaradamente se recusam a ser adiadas.
Pateticamente, as eternas verdades da vida, aquelas que deveriam clamar por nossa atenção e insistir para serem reconhecidas, esperam silenciosa e pacientemente nas alas de nossa consciência, para serem finalmente convertidas no tecido vivo da existência. Todas juntas, as pedras tumulares contam a história de amanhãs que jamais virão, e juntos, muitos de nós estamos esboçando epitáfios similares para nós mesmos.
O início de um novo ano representa uma oportunidade única para transformar nossos "amanhãs" em "hojes", assumindo o sério compromisso de conquistar as metas que julgamos sagradas. Fazer "o primeiro em primeiro lugar" nos possibilitará sentir a energia de estar vivo e tornar realidade a liberação de nosso potencial.
Em minha lista pessoal para o ano que já se iniciou, o "hoje" está no primeiro lugar da lista. Gostaria de insistir respeitosamente para que cada um refletisse sobre as muitas bênçãos que nos alcançarão se tivermos a tenacidade e a determinação para transformar nossos "amanhãs" em "hojes".

Rabino Michel Twerski

Amanhãs!

Durante uma recente excursão, fiquei surpreso ao ver-me cercado por um mar de "amanhãs". Não, não se tratava de uma visita a uma maternidade, nem à classe do maternal de uma escola, onde o brilhante potencial de crianças pequenas nos proporciona um tangível sendo do "amanhã", i.e., o futuro, vital e promissor. Embora seja verdade que eu sempre sinta o entusiasmo do "amanhã" quando estou com os pequeninos, a sensação que estou descrevendo vinha exatamente do lado oposto do espectro - o cemitério.
Todas juntas, as pedras tumulares contam a história de amanhãs que jamais virão, e juntos, muitos de nós estamos esboçando epitáfios similares para nós mesmos.
Meus deveres oficiais como rabino de uma comunidade levam-me, mais vezes do que eu gostaria, aos silenciosos campos onde as gerações que nos precederam foram para descansar. Se a pessoa olha em torno e escuta atentamente o sossego, há uma inquietante consciência de uma multiplicidade de (na falta de uma palavra melhor) "amanhãs" - uma profusão de coisas que poderiam ter sido, deveriam ter sido, talvez fossem, teriam sido... mas para "amanhã."
Tendo crescido em Milwaukee, e trabalhado por 40 anos no rabinato, consigo olhar em torno, não importa qual o cemitério que estou visitando, e reconhecer muitos nomes familiares, pessoas de quem me recordo da minha infância ou depois. Muitas vidas vividas em grande distinção. Os restantes, em geral, foram cidadãos de bem, devotados à família e à comunidade, judeus que deixaram um legado de trabalho e integridade. É por este último grupo que fico tão entristecido. Porque não apenas me lembro de quem foram, mas de quem poderiam ter sido, se não tivessem dissipado seus "hojes" em troca de seus "amanhãs".
É claro que todos fazemos isso; a procrastinação é tão antiga quando a própria humanidade. Porém o mero dilúvio daquilo que o passado adiou para "amanhã" elevou-se como uma densa névoa sobre o campo, lançando uma sombra pesada e longa sobre o solo.
Minhas reflexões levaram-me de volta ao presente, à família, meus amigos, e a mim mesmo. Cada um de nós tem muitas coisas que preza e espera realizar durante a vida. Invariavelmente, são conquistas importantes, do tipo que se constitui em legados duradouros. O que fazemos sobre estas aspirações? Adiamos para "amanhã" - é claro! Hoje estamos muito ocupados, muito sobrecarregados, e muito exigentes. Com uma constância infalível, amanhã será um outro hoje, repleto e agitado com exigências que descaradamente se recusam a ser adiadas.
Pateticamente, as eternas verdades da vida, aquelas que deveriam clamar por nossa atenção e insistir para serem reconhecidas, esperam silenciosa e pacientemente nas alas de nossa consciência, para serem finalmente convertidas no tecido vivo da existência. Todas juntas, as pedras tumulares contam a história de amanhãs que jamais virão, e juntos, muitos de nós estamos esboçando epitáfios similares para nós mesmos.
O início de um novo ano representa uma oportunidade única para transformar nossos "amanhãs" em "hojes", assumindo o sério compromisso de conquistar as metas que julgamos sagradas. Fazer "o primeiro em primeiro lugar" nos possibilitará sentir a energia de estar vivo e tornar realidade a liberação de nosso potencial.
Em minha lista pessoal para o ano que já se iniciou, o "hoje" está no primeiro lugar da lista. Gostaria de insistir respeitosamente para que cada um refletisse sobre as muitas bênçãos que nos alcançarão se tivermos a tenacidade e a determinação para transformar nossos "amanhãs" em "hojes".

Rabino Michel Twerski

Rosh Hashaná: O Dia do Julgamento

"Hayom harat olam..."
“Hoje é o dia do nascimento do mundo. Hoje Ele convoca em juízo todas as criaturas do universo..." (da oração de Mussaf de Rosh Hashaná)

Rosh Hashaná, comemorado no primeiro e segundo dias do mês hebraico de Tishrei, é diferente de todas as outras festividades judaicas. Todas as demais marcam uma experiência significativa na história de nosso povo, enquanto que Rosh Hashaná celebra um evento universal: a criação do primeiro homem e da primeira mulher. Rosh Hashaná não é, portanto, apenas uma data sagrada para o judaísmo, mas uma celebração universal, que enfatiza a necessidade de que cada ser humano tenha plena consciência de sua missão nesta vida.
O Zohar, obra em que se alicerça a Cabalá, ensina que quando o primeiro homem foi criado, D’us imediatamente o informou acerca de seus poderes, revelando-lhe sua missão de vida: "...Frutificai-vos e multiplicai-vos e enchei a terra, subjugando-a e dominando os peixes do mar e as aves dos céus, bem como todo ser que se arrasta pela terra" (Gênese 1:28). O Criador ordenava, pois, aos primeiros homem e mulher criados que conquistassem e governassem o mundo todo.
Nossos sábios revelam o verdadeiro significado dessa missão atribuída ao homem de “conquistar o mundo”. Explicam-nos que quando D’us criou Adão, sua Divina Alma permeou e irradiou-se por todo o seu ser, dando-lhe, assim, o poder de dominar os outros seres. Mas que quando as demais criaturas chegaram-se a Adão para coroá-lo como seu criador, ele lhes apontou o engano, dizendo: “Reunamo-nos e juntos exaltemos a D’us, nosso Criador”!
A missão de “subjugar o mundo” significa que o propósito do homem, nesta vida, é santificá-la, a começar por ele e os que o cercam, para que todos os seres vivos saibam que D’us é nosso Criador. D’us criou apenas um homem – dele criando a mulher – e impôs a ambos esta tarefa. O Talmud explica que uma das razões para que D’us criasse apenas um ser humano foi transmitir o ensinamento de que cada um de nós é um microcosmo do universo todo. Nossos sábios dizem que cada ser humano deve habituar-se a dizer “o mundo todo foi criado apenas por minha causa”. Não se trata de uma afirmação de egocentrismo ou egoísmo. Bem ao contrário, significa que cada pessoa tem sobre si a responsabilidade por todo o restante do mundo. Como cada um de nós representa Adão, cada um de nós herda e carrega a missão ordenada pelo Criador à primeira criatura humana em quem Ele insuflou vida. Assim sendo, qualquer um de nós tem a capacidade de “subjugar o mundo”. Se a pessoa não cumpre essa tarefa e não utiliza os seus inestimáveis poderes divinos da forma mais plena possível, terá falhado não apenas ele, mas sua falha afetará o bem-estar e o destino do mundo inteiro. Esta conscientização de maior poder do indivíduo e de responsabilidade coletiva e as subseqüentes decisões e ações que tal conscientização enseja são dos principais temas dos dias sagrados de Rosh Hashaná.

Aniversário da Criação

Na liturgia de Rosh Hashaná, proclamamos: “Hoje é o dia do nascimento do mundo, do início da Obra de Tuas mãos...”. Mas, por que Rosh Hashaná é chamado de “início da Obra Divina” se a Criação do mundo se iniciou cinco dias antes de Adão ser formado? Por que seria este o dia chamado de “primeiro” quando, conforme revela a Torá, era, de fato, o sexto dia?
Uma das respostas a estas perguntas é que no sexto dia da Criação – o primeiro dia do mês hebraico de Tishrei – a existência teve conteúdo e sentido com a criação de Adão e Eva. O aniversário do mundo não é computado a partir da criação das galáxias, plantas ou animais, que não possuem o livre arbítrio; nem tampouco é calculada a partir da criação dos anjos, que cega e infalivelmente seguem todas as ordens e diretivas Divinas. Mais precisamente, o propósito do universo se concentra na força interna do ser humano de escolher entre o bem e o mal, de viver consoante com a vontade de Seu Criador ou não. No sexto dia da Criação, quando Adão e Eva abriram seus olhos e contemplaram o mundo Divino, foram agraciados com a opção de a Ele atender ou a Ele se opor. O ser humano é o protagonista da história ininterrupta do universo e, portanto, a sua criação foi o que determinou o primeiro dia do mundo.
A cada Rosh Hashaná, repetimos o apelo de Adão a todas as criaturas vivas: “Vinde, para que juntos louvemos e nos curvemos, ajoelhando-nos diante de D’us, nosso Criador”. Durante os dois dias dessa festividade, intensificamos a nossa conscientização da presença do Criador, comprometendo-nos a aumentar nossa percepção de Sua Majestade e de Seu domínio sobre nossas vidas. Por esta razão, proclamamos em nossas preces de Rosh Hashaná: “Nosso D’us e D’us de nossos pais, reina sobre todo o universo com Tua glória, eleva-Te sobre toda a terra, na Tua magnificência, e manifesta-Te no esplendor da majestade do teu poder a todos os habitantes do Teu universo. E saberá todo ser vivo que Tu o fizeste, e toda criatura que Tu a criaste, e todo aquele em quem insuflaste uma alma viva proclamará: “O Eterno, D’us de Israel, é Rei Majestoso e Seu Reino a tudo domina”.
O Talmud (Rosh Hashaná 10b-11a) conta que além da criação de Adão, outros inícios significativos ocorreram em Rosh Hashaná. Os Patriarcas Abraham e Jacob nasceram nesse dia. Abraham representou um novo despertar para toda a humanidade após Adão e Noé não terem conseguido disseminar o monoteísmo e a moralidade pelo mundo. Jacob foi um recomeço para o povo judeu, pois por seu intermédio os judeus se tornaram uma família que, a partir de então, desenvolveu-se em uma nação. E foi também em Rosh Hashaná que o povo judeu, no Egito, foi dispensado do trabalho escravo, marcando o início de sua libertação que culminaria no Monte Sinai, onde receberam a Torá, tornando-se, a partir de então, um povo amadurecido a ponto de constituir uma verdadeira nação.

Por que dois dias? A explicação cabalista

O fato de Rosh Hashaná marcar o aniversário da Criação é exatamente a razão que faz dessa data o Dia do Julgamento. Qualquer plano deve ser avaliado, de tempos em tempos, para ver o seu andamento, se atingiu seus objetivos e propósitos. Como Rosh Hashaná foi o primeiro dia em que um ser com um propósito determinado passou a fazer parte deste mundo que conhecemos, D’us escolheu esse dia para a avaliação anual de Seu universo e do quanto os seres humanos tinham alcançado em levá-lo à perfeição. Nós, judeus, o Povo Eleito, recebemos d’Ele a ordem de cumprir todos os mandamentos de Sua Torá. Os não judeus têm a obrigação de cumprir as Sete Leis de Noé, que proíbem idolatria, blasfêmia, assassinato, imoralidade sexual, roubo, ingestão de qualquer parte de um animal vivo e a corrupção da justiça. Os não judeus também têm a obrigação de praticar caridade, atos de bondade e zelar pela eficiência e justiça de seus tribunais civis.
Nos Dois Dias do Juízo, D’us julga judeus e não judeus, indistintamente, bem como todos os outros seres vivos. Pois está escrito: “Em Rosh Hashaná, o Dia do Ano Novo, será inscrito e no Yom Kipur, o dia de jejum da Expiação, será confirmado: quantos terão de sair do convívio humano e quantos terão que nele entrar; quem viverá e quem morrerá... quem em sossego e quem em meio a tumulto... quem em pobreza e quem em abundância; quem será elevado e quem humilhado será”. Enquanto, por assim dizer, D’us está em Seu Trono Celestial, julgando-nos, nós oramos implorando pela vida, saúde e sustento para o ano vindouro, pois que em Rosh Hashaná os atos de cada indivíduo são minuciosamente examinados; durante esses dois dias, estão sendo julgados, pelo Juiz e Provedor Celestial, o destino e o sustento, no ano por vir, de cada um dos seres vivos sobre a terra. Os estudiosos místicos ensinam que o comportamento do povo judeu afeta não apenas a sua própria sentença, a ser proferida em Rosh Hashaná, mas também a do mundo e daqueles que nele habitam.
Durante o ano, as comunidades que vivem fora de Israel celebram as festas judaicas durante um dia a mais do que aqueles que habitam a Terra Santa. No entanto, mesmo os que residem em Israel têm que guardar a data sagrada de Rosh Hashaná por dois dias – no primeiro e segundo dias do mês de Tishrei. O Livro do Zohar, escrito pelo grande místico e mestre da Torá, Rabi Shimon bar Yochai, explica o porquê: Rosh Hashaná, o Dia do Julgamento, representa o atributo Divino da Guevurá – justiça e disciplina severas. E, como todas as criaturas vivas estão sendo julgadas em Rosh Hashaná e não suportariam a aplicação da severa sentença Divina, acrescenta-se um segundo dia à celebração. Esse segundo dia é principalmente governado pelo atributo de Malchut – que, sendo o atributo Divino que permeia o Shabat, é um atributo de julgamento clemente e misericordioso.
Nos dias que antecedem Rosh Hashaná, reunimo-nos nas sinagogas para recitar as preces de Selichot – pedidos de perdão Divino. O Zohar revela a importância da confissão dos pecados diante do Criador: “Aquele que encobre suas transgressões, jamais prosperará; mas quem as confessa e abandona, obterá a misericórdia” (Provérbios 28:13) do Santo, Bendito Seja Ele. Rosh Hashaná, portanto, não é apenas um dia de julgamento, mas especialmente de auto-análise e julgamento de nossos próprios atos.
Diariamente, mas em especial durante a festividade de Rosh Hashaná e nos dias que a antecedem e sucedem, cada um de nós deve indagar a si próprio quanto de seus propósitos conseguiu realizar e a que novas determinações de crescimento e aperfeiçoamento pessoal se propôs para o ano que está por iniciar. Cada um de nós, judeus, deve refletir sobre o fato de ter a responsabilidade de “subjugar e conquistar o mundo”, cumprindo as instruções do Criador do Mundo, por Ele entregues a nós em Sua Torá. Em Rosh Hashaná, somos responsabilizados não apenas pelo que fizemos, mas também pelas boas ações que poderíamos ter realizado – e não o fizemos. Fomos bondosos e generosos com os menos favorecidos? Mantivemos nossa fé e elevada moral mesmo diante de provações e atribulações? Oramos com sinceridade e cumprimos os mandamentos de D’us com seriedade de intenção e total entrega? Conseguimos elevar-nos e santificar o mundo através do estudo da Torá – com a plenitude que estava a nosso alcance? O julgamento de Rosh Hashaná requer que pesemos as mínimas e infinitas possibilidades e oportunidades que são colocadas diante de nossos olhos, diariamente.
Ano após ano, nos dois dias de Rosh Hashaná, D’us determina se cada um de nós está desempenhando sua missão de vida em toda a sua plenitude – para assim santificar a si próprio e a todo o mundo, através da proclamação da Majestade do Criador e de ações consoantes com as Suas determinações. Então, enquanto “...todos os habitantes do mundo desfilam diante d’Ele feito um rebanho”..., e Ele, como um pastor, vistoria as suas ovelhas, determinando “o destino de cada criatura e anotando a sua sentença: ...quem viverá e quem morrerá..., quem em pobreza e quem em abundância, quem será humilhado e quem será elevado”...eis que, repentinamente, um som penetrante eleva-se da Terra e reverbera, em sua magnitude, pelos Céus. É o chamado do shofar, o simples toque de uma trombeta que anuncia que o Povo Eleito por D’us está coroando-O como seu Rei, anunciando a todos os seres vivos que...”O Eterno, D’us de Israel, é Rei Majestoso e Seu Reino a tudo domina”.
Proclamando mensagens com uma eloqüência que as palavras jamais seriam capazes de transmitir, o simples chamado do shofar desperta a consciência do homem para um compromisso renovado e mais profundo com seus atos e missão de vida.
E D’us Misericordioso, Aquele que penetra nas profundezas do coração de cada um de nós, irá certamente responder a nosso propósito de tomar boas resoluções, enviando as Suas bênçãos para que as mesmas se realizem em sua plenitude.
Que neste Rosh Hashaná que se avizinha..., possa Aquele que está nas Alturas Celestiais “erguer-se do Trono do Julgamento e sentar-se no Trono da Misericórdia”, para desta forma inscrever todos os Seus filhos no Livro da Vida, abençoando-os com um ano de paz, saúde, júbilo e tranqüilidade material e espiritual.

Fonte: Morashá- Edição 42 - Setembro de 2003
Bibliografia:
• Commitment, Memory and Deed: www.chabad.org/holidays/JewishNewYear/
• The Neurology of Time; ibid
• The Man in Man; ibid
• To Will a World; ibid
• Rebbe’s Message – 25th of Elul, 5719 – Rabbi Menachem Mendel Schneerson, Z.T.K.L.
• Rosh Hashana Machzor – Artscroll Mesorah – Rabbi Nosson Scherman, Rabbi Meir Zlotowitz, Rabbi Avie Gold 
• The Wisdom of the Zohar – Isaiah Tishby (Editor), David Goldstein (Translator) 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O que há de tão terrível na idolatria?


Por que o judaísmo é tão intolerante quanto à idolatria? Não estou falando de templos imensos com sacrifícios humanos. Mas sim, falo do idólatra civilizado, na privacidade de seu próprio lar. Com um emprego, família, hipoteca, que faz doações para o Fundo Mundial contra a Fome e o Greenpeace - e ao invés de um D'us, ele simplesmente tem dois ou três, ou mesmo várias dúzias, todos alinhados no painel do carro. Por que o judaísmo faz disso um pecado capital, exigindo a erradicação total da idolatria em cada canto do mundo? Desde que não prejudique ninguém, o que há de tão terrível?
Resposta:
Há muitas maneiras de se responder a isso, mas tomemos uma perspectiva histórica. Os historiadores concordam que nosso atual padrão ético origina-se na ética judaica. Sim, os gregos nos legaram as ciências naturais, a filosofia e a arte; os romanos nos deram estrutura governamental e engenharia; dos persas, temos a poesia e a astronomia; dos chineses, o papel, a impressão, a pólvora, acupuntura e mais filosofia, e assim por diante. Porém o fato histórico é que todas estas culturas (e todas as outras não citadas) apoiaram e até glorificaram atitudes e comportamentos que hoje em dia abominamos universalmente. Nos dias de hoje, se você se livrar dos filhos não desejados, praticar a pederastia, colocar seres humanos para se matarem uns aos outros por esporte, ignorar os direitos daqueles inferiores a você na pirâmide social e recusar-se a reconhecer qualquer responsabilidade social para com os pobres e os desabilitados, e mal consegue esperar para correr para a guerra contra o país vizinho, você é um bárbaro. Você teria sido um perfeito cidadão de Atenas ou Roma, mas hoje, nenhum clube o aceitaria.
De onde vêm estes valores? Existe somente uma fonte que os historiadores podem apontar: a Torá. E o mesmo ocorre com a educação universal e o ideal da paz no mundo.
Ora, isso dá a qualquer erudito um problema de monta para resolver. A História é geralmente vista como algo similar à uma floresta virgem e diversificada, onde uma coisa cresce a partir de outra. As sementes caem e brotam. As árvores ramificam e florescem, depois caem e nutrem cogumelos a partir de sua raiz apodrecida. Toda a vegetação e criaturas da floresta dividem o mesmo ar, água e solo, e nenhuma criatura pode subsistir isolada. Assim também, uma civilização se ergue do barro, ramifica-se, e cai para tornar-se o solo nutriente para a próxima. As idéias se transformam, numa perpétua metamorfose ao passarem pelos filtros das variadas culturas. Tudo o que é, já foi - e terminará por passar.
Tudo exceto os judeus. Totalmente fora de contexto, com uma ética que fez cada nação chamá-lo de louco e absurdo, totalmente radical, sempre fora do compasso. Definitivamente, não é parte desta floresta. E no fim, sua ética leva a melhor.
Faz-se necessária alguma explicação. Antes de mais nada, de onde eles tiraram estas idéias estranhas? E dizer-me que o Todo Poderoso os tirou da escravidão e ditou tudo para eles, não funciona. É verdade, mas não basta. Porque os seres humanos somente podem ouvir aquilo que já sabem. Precisava haver alguma coisa lá que chegou antes.
A resposta clássica é que certa vez, houve um homem chamado Avraham (Abraão), vindo de Ur, na Caldéia - a base original da civilização. Ele surgiu com este padrão através de seu próprio gênio independente. É claro que ser engenhoso, bravo e dissidente não bastava. Sua missão exigia também a tenacidade e a convicção para despertar uma geração que daria continuidade a esta idéia, nadando rio acima em situação de inferioridade perante a sociedade dominante. E então, por muitas eras, esta ética provou ser a espinha dorsal mais eficaz de uma sociedade sustentável.
Agora, diga-me, algum erudito racional realmente acredita neste cenário?
Na verdade, a versão apoiada pelo Talmud e descrita em detalhes pelo Rambam (Maimônides) é muito mais crível:
A ética que Avraham apresentou ao mundo já existia desde o início. A humanidade sabia que cada pessoa era feita à Divina imagem, que a vida tinha um propósito. Que o mundo era a obra de uma entidade celestial que desejava que dele cuidássemos, e que nos julgava segundo nossos méritos. Mesmo no tempo de Avraham, indivíduos isolados resistiam e pregavam isso a seus discípulos, como uma tradição desde Adam (Adão), Metushelach (Matusalém) e Nôach (Noé).
Mas estamos falando de seres humanos. Exatamente por causa da centelha Divina dentro de si, o humano é também a criatura selvagem e louca que busca a abordagem de vida mais bizarra, capaz e pronto a fazer qualquer coisa. Assim, a sociedade humana em geral abandonou o padrão original de Adam por "aquilo que a faz sentir-se bem." A lei tornou-se nada mais que uma forma de o rei governar seu povo. A ética passou a ser nada mais que o costume que fosse mais confortável para a maioria das pessoas. A única medida do valor de uma vida humana era o grau de poder que a pessoa tinha. E o mundo natural era visto como um local sem valor, não valendo a pena investir em nada além daquilo que produzisse alimentos e poder sobre os outros.
Avraham não precisou começar com a humanidade a partir do zero. Ele tinha apenas que resgatar aquela ética original. Mas ele também redescobriu - e ele o fez por si mesmo - a base que tornou aquela ética sustentável: o Monoteísmo. Mais especificamente: a providência monoteísta. Para simplificar: todo adulto e criança deve saber que há um Único Criador de todas as coisas, que Se importa com aquilo que você está fazendo com Seu mundo.
Por que o monoteísmo e a providência são tão essenciais?
Voltemos à história novamente, segundo as fontes judaicas tradicionais:
Os predecessores de Avraham também sabiam do D'us Único, Criador do céu e da terra. Porém eles entendiam D'us como sendo sublime e transcendente demais para estar ocupado com este mundo profano e suas criaturas. Eles começaram a fazer pouco de Sua providência, afirmando que poderes secundários, de Seu mandato, tinham sido concedidos como uma parte do domínio. Chegaram ao ponto de construir templos, onde concentravam suas mentes na dinâmica destas forças, atingindo alturas espirituais e poder místico. Por fim, a sabedoria deu lugar ao charlatanismo, conforme os sacerdotes diziam às massas que uma determinada estrela, deus ou deusa tinha falado com eles, ordenando-lhes que servissem a ele ou ela de uma certa maneira. Os governantes acharam que uma boa mistura de conhecimento secreto e uma mitologia conveniente poderia ser um instrumento de poder sobre o populacho; que controlando o fluxo de conhecimento, seriam capazes de manter o povo em respeito e obediência.
Foi aí que Avraham divergiu. Ele enxergou através da ordem estabelecida com sua hierarquia de conhecimento e poder, e ponderou que esta era a origem de todo o mal. Viu até o fundo disso: enquanto D'us estivesse "lá em cima" e tudo o mais fosse visto como num plano descendente, mais e mais distante de Seu domínio, este mal continuaria.
Dentro deste paradigma, a vida humana perde seu valor essencial. Você, como indivíduo, não conta mais. Tudo que importa é quão alto você está na escala. Não somente os direitos humanos, como também o avanço da tecnologia é atrasado - pela necessidade da classe dominante de manter as massas trabalhando. Todo o progresso é dar ainda mais poder ao poderoso. A saúde pública, a previdência e a educação são um despropósito. Portanto, Avraham desafiou aquela hierarquia. Ele ensinou cada pessoa a invocar o nome do Único D'us dos céus e da terra, que julga igualmente os atos de todos os homens, desde o rei mais importante até o servo mais humilde. Ao colocar o D'us original de volta no mundo, Avraham recriou a "pessoa" - um ser humano que tem valor apenas por estar aqui.
Dentro do antigo padrão, a ética não tem uma base para se firmar. Se você não gosta daquilo que um deus exige de você, vai procurar outro deus que seja mais a seu gosto. Ou você molda estes deuses, enganando-os ou subornando-os, como eles mesmos estão acostumados a fazer um com o outro. Afinal, nenhum deles é supremo, nenhum é todo poderoso. Portanto, tudo é justificável. Então, Avraham destruiu os ídolos. Como existe somente um D'us, que supervisiona todas as coisas, a moralidade deixou de ser relativa. Todas as éticas são determinadas não pelo fluxo da conveniência social, mas por Seu padrão intransigente.
Sem a base de Avraham para a ética, a sociedade não tem estabilidade. Qualquer instituição poderia ser abalada até os alicerces, modificando as circunstâncias e os caprichos da vontade humana. Na Grécia Antiga, a instituição do casamento chegou à beira do colapso, devido às preferências pelo mesmo sexo, enquanto que em Roma, a unidade da família foi gradualmente desmantelada pela promiscuidade. As instituições que deveriam ter nutrido a espiritualidade humana em muitas sociedades tornou-se corrupta em orgias sangrentas e na veneração aos sentidos. Em muitos exemplos, tais como oriente, com nenhum senso de responsabilidade social, permitiu-se que a pobreza crescesse em proporções incontroláveis, com imensa concentração de poder. Em nossa época, com a origem das espécies atribuída aos místicos deuses do acaso e da lei natural, foram cometidos os mais horrendos crimes contra a humanidade, e a própria biosfera está ameaçada. Somente quando os edifícios da sociedade se erguerem sobre o alicerce sólido Daquele que Criou Tudo em Primeira Mão, uma sociedade sustentável poderá desenvolver-se.
A bem da verdade, a mensagem de Avraham também começou a perigar com o tempo. Não foi senão até que a providência monoteísta transcendesse o reino das idéias e se tornasse a real experiência de vida de um povo, que foi realmente capaz de prevalecer. E é exatamente isso que aconteceu no Monte Sinai, quando os descendentes de Avraham ficaram face a face com as ordens de agir diretamente vindas do Alto. O conceito da "mitsvá" entrou no mundo - algo que você faz porque D'us assim o deseja. E esta base tem se provado para sempre resistente.
Quanto ao restante das nações, como escreve o Rambam, elas também receberam ordens no Monte Sinai - de cumprirem as sete mitsvot de Adão e Nôach, que incluem a proibição contra o politeísmo.
Hoje, estamos testemunhando os mais dramáticos resultados da estratégia de Avraham em ação: nosso progresso nos últimos 500 anos, até chegar à atual habilitação do consumidor com a tecnologia e a informação, somente tornou-se possível através do despertar desta ética. Em um mundo politeísta, isso jamais teria ocorrido. Foi somente depois que o povo da Europa começou de fato a ler a Bíblia e a debater o que ela tinha para lhes dizer, que os conceitos de direitos humanos, responsabilidade social, o valor da vida e por fim o ideal da paz mundial tiveram seu lugar no progresso da civilização. E somente um mundo assim poderia ter desenvolvido a educação e a saúde públicas, a pensão de aposentadoria, os telefones, máquinas de fax, computadores, a Internet, o design ambiental e o desarmamento nuclear.
Estamos muito envolvidos para reconhecermos isso; o cobertor das trevas que resiste lutando até seu último alento preocupa nossas mentes. Porém se pudéssemos viajar de volta no tempo e descrever ao judeu das eras passadas o mundo que temos hoje em dia - um mundo que valoriza a vida, a paz mundial, os direitos individuais, a liberdade de expressão, o estudo, o saber e a compaixão por aqueles que possuem menos - aquele judeu sem dúvida responderia de olhos arregalados: "Quer dizer, são os dias de Mashiach?"
Um tempo que começou quando um jovem na Suméria pegou um martelo e esmagou os ídolos na casa de seu pai.
Tzvi Freeman

Leitura complementar: A versão judaica da história está espalhada por todo o Talmud, mas um completo esboço está na abertura de Maimônides, Leis da Idolatria. Esta é uma leitura essencial, como também a palestra do Lubavitcher Rebe que ilumina aquele esboço, apresentada em Licutei Sichot, vol. 20, pág. 13-24.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Três conselhos.

             Um casal de jovens recém-casados era muito pobre e vivia de favores num sítio do interior. Um dia o marido fez a seguinte proposta para a esposa:
         "Querida eu vou sair de casa, vou viajar para bem longe, arrumar um emprego e trabalhar até ter condições para voltar e dar-te uma vida mais digna e confortável. Não sei quanto tempo vou ficar longe, só peço uma coisa, que você me espere e enquanto eu estiver fora, seja FIEL a mim, pois eu serei fiel a você." 
     Assim sendo, o jovem saiu. Andou muitos dias a pé, até que encontrou um fazendeiro que estava precisando de alguém para ajudá-lo em sua fazenda.
     O jovem chegou e ofereceu-se para trabalhar, no que foi aceito. Pediu para fazer um pacto com o patrão, o que também foi aceito.
     O pacto foi o seguinte: "Me deixe trabalhar pelo tempo que eu quiser e quando eu achar que devo ir, o senhor me dispensa das minhas obrigações. EU NÃO QUERO RECEBER O MEU SALÁRIO. Peço que o senhor o coloque na poupança até o dia em que eu for embora. No dia em que eu sair o senhor me dá o dinheiro e eu sigo o meu caminho".
     Tudo combinado.    
     Aquele jovem trabalhou DURANTE VINTE ANOS, sem férias e sem descanso.
     Depois de vinte anos chegou para o patrão e disse:
     "Patrão, eu quero o meu dinheiro, pois estou voltando para a minha casa." 
     O patrão então lhe respondeu:
      "Tudo bem, afinal, fizemos um pacto e vou cumpri-lo, só que antes quero lhe fazer uma proposta, tudo bem? Eu lhe dou o seu dinheiro e você vai embora, ou LHE DOU TRÊS CONSELHOS e não lhe dou o dinheiro e você vai embora. Se eu lhe der o dinheiro eu não lhe dou os conselhos; se eu lhe der os conselhos, eu não lhe dou o dinheiro. Vá para o seu quarto, pense e depois me dê a resposta.” 
Ele pensou durante dois dias, procurou o patrão e disse-lhe: "QUERO OS TRÊS CONSELHOS."
     O patrão novamente frisou: "Se lhe der os conselhos, não lhe dou o dinheiro."
     E o empregado respondeu: "Quero os conselhos." 
     O patrão então lhe falou:
     1. NUNCA TOME ATALHOS EM SUA VIDA. Caminhos mais curtos e desconhecidos podem custar a sua vida.
     2. NUNCA SEJA CURIOSO PARA AQUILO QUE É MAL, pois a curiosidade para o mal pode ser mortal.
     3. NUNCA TOME DECISÕES EM MOMENTOS DE ÓDIO OU DE DOR, pois você pode se arrepender e ser tarde demais.
            Após dar os conselhos, o patrão disse ao rapaz, que já não era tão jovem assim:
     "AQUI VOCÊ TEM TRÊS PÃES, estes dois são para você comer durante a viagem e este terceiro é para comer com sua esposa quando chegar a sua casa.“
     O homem então seguiu seu caminho de volta, depois de vinte anos longe de casa e da esposa que ele tanto amava.
    Após primeiro dia de viagem, encontrou um andarilho que o cumprimentou e lhe perguntou: "Pra onde você vai?“
     Ele respondeu: "Vou para um lugar muito distante que fica a mais de vinte dias de caminhada por essa estrada." 
     O andarilho disse-lhe então: "Rapaz, este caminho é muito longo, eu conheço um atalho que é dez,
e você chega em poucos dias...“
     O rapaz contente, começou a seguir pelo atalho, quando lembrou-se do primeiro conselho, então voltou e seguiu o caminho normal.
     Dias depois soube que o atalho levava a uma emboscada.
     Depois de alguns dias de viagem, cansado ao extremo, achou pensão à beira da estrada, onde pode hospedar-se. 
     Pagou a diária e após tomar um banho deitou-se para dormir.
     De madrugada acordou assustado com um grito estarrecedor. Levantou-se de um salto só e dirigiu-se à porta para ir até o local do grito.
     Quando estava abrindo a porta, lembrou-se do segundo conselho.
     Voltou, deitou-se e dormiu.
     Ao amanhecer, após tomar café, o dono da hospedagem lhe perguntou se ele não havia escutado gritos durante a noite, e ele respondeu que sim.
     O hospedeiro perguntou-lhe se não estava curioso a respeito, e ele respondeu que não..
     O hospedeiro prosseguiu: “VOCÊ É O PRIMEIRO HÓSPEDE A SAIR DAQUI VIVO, pois meu filho tem crises de loucura, grita durante a noite... e quando o hóspede sai, mata-o e enterra-o no quintal.”
     O rapaz prosseguiu na sua longa jornada, ansioso por chegar a sua casa.
     Depois de muitos dias e noites de caminhada... Já ao entardecer, viu entre as árvores a fumaça de sua casinha, andou e logo viu entre os arbustos a silhueta de sua esposa.
     Estava anoitecendo, mas ele pode ver que ela não estava só.
     Andou mais um pouco e viu que ela tinha entre as pernas, um homem a quem estava acariciando
os cabelos.
    Quando viu aquela cena, seu coração se encheu de ódio e amargura e decidiu-se a correr de encontro aos dois e a matá-los sem piedade.
    Respirou fundo, apressou os passos, quando lembrou-se do terceiro conselho.
     Então parou, refletiu e decidiu dormir aquela noite ali mesmo e no dia seguinte tomar uma decisão.
     Ao amanhecer, já com a cabeça fria, ele pensou:  "NÃO VOU MATAR MINHA ESPOSA E NEM O SEU AMANTE.
    Vou voltar para o meu patrão e pedir que ele me aceite de volta.
     Só que antes, quero dizer a minha esposa que eu sempre FUI FIEL A ELA".
     Dirigiu-se à porta da casa e bateu.
     Quando a esposa abre a porta e o reconhece, se atira em seu pescoço e o abraça afetuosamente.
     Ele tenta afastá-la, mas não consegue. Então, com lágrimas nos olhos lhe diz: "Eu fui fiel a você e você me traiu..."
     Ela espantada lhe responde: "Como? Eu nunca lhe trai, esperei durante esses vintes anos!"
     Ele então lhe perguntou: "E aquele homem que você estava acariciando ontem ao entardecer?"


     "AQUELE HOMEM É NOSSO FILHO. Quando você foi embora, descobri que estava grávida. Hoje ele está com vinte anos de idade.“
     Então o marido entrou, conheceu, abraçou o filho e contou-lhes toda a sua história, enquanto a esposa preparava o café.
     Sentaram-se para tomar café e comer juntos o último pão.
     APÓS A ORAÇÃO DE AGRADECIMENTO, COM LÁGRIMAS DE EMOÇÃO, ele parte o pão e, ao abri-lo, encontra todo o seu dinheiro, o pagamento por seus vinte anos de dedicação!  

     Muitas vezes achamos que o atalho "queima etapas" e nos faz chegar mais rápido, o que nem sempre é verdade...
     Muitas vezes somos curiosos, queremos saber de coisas que nem ao menos nos dizem respeito e que nada de bom nos acrescentará...
     Outras vezes, agimos por impulso, na hora da raiva, e fatalmente nos arrependemos depois....
     Espero que você, assim como eu, não se esqueça desses três conselhos e que, principalmente, não se esqueça de CONFIAR em DEUS... (mesmo que a vida, muitas vezes já tenha te dado motivos para a desconfiança).
Autor desconhecido.